Equipe do LAPA/UFS (Laboratório de Petrologia Aplicada à Pesquisa Mineral) realizando trabalhos de campo na região de Poço Redondo Fotos: Ascom/UFS
Por Antonio Carlos Garcia (*)
Conhecido pela força da produção de leite no sertão sergipano, Poço Redondo também está no centro de pesquisas da Universidade Federal de Sergipe (UFS) sobre granitos com potencial para conter minerais que hospedam terras raras e outros elementos críticos e estratégicos para a indústria de alta tecnologia. Os estudos, conduzidos pelo professor titular de Petrologia Herbert Conceição e outros pesquisadores da universidade, já despertam o interesse de empresas, que mantêm contatos com a equipe da UFS. Herbert não revela os nomes das companhias nem informações específicas sobre determinadas áreas por compromissos de confidencialidade relacionados às pesquisas.
A área estudada se estende a partir de Nossa Senhora da Glória, passa por Poço Redondo e segue até Canindé de São Francisco. Nessa faixa existem várias intrusões graníticas — grandes corpos de granito formados quando o magma penetrou outras rochas e se solidificou no interior da crosta terrestre — que estão sendo mapeadas e analisadas pelos pesquisadores.
“Glória tem várias intrusões de granito que vão até Canindé. Então nós estamos reconhecendo a forma dos corpos, coletando amostras, buscando saber se a composição varia, se esses minerais de interesse econômico estão mais concentrados num lugar ou no outro”, explica Herbert.
Em Poço Redondo, essas formações podem ser percebidas na própria paisagem. “Imagine a entrada de Poço Redondo. Você já vê os lajedões ali, não é?”, observa.
O trabalho procura identificar e caracterizar minerais presentes nos granitos capazes de concentrar elementos de interesse econômico. Entre os alvos estão os elementos terras raras, utilizados em tecnologias avançadas.
Herbert destaca o neodímio, empregado na fabricação de ímãs de alto desempenho e presente em diferentes equipamentos tecnológicos. “O mais importante é o neodímio. Esse elemento dentro de um produto tecnológico é um avanço enorme.”
Ao explicar a abrangência das pesquisas, o professor cita também elementos estratégicos como nióbio, tântalo, urânio, zircônio e rádio. A identificação desses minerais, porém, é apenas uma etapa. Para que uma ocorrência possa se transformar em atividade econômica, é preciso determinar quantidade, concentração, tecnologia necessária para recuperação e custos de exploração.
Herbert afirma que o caminho entre uma descoberta geológica e uma eventual exploração mineral costuma ser longo. Em uma situação muito favorável, segundo ele, o processo poderia ocorrer em cerca de cinco anos, mas a média é maior. “A média é de 10 a 15 anos para você identificar e ter a mina em funcionamento, tirando o bem mineral. É o normal, em todo lugar do mundo.”
Questionado sobre há quanto tempo a equipe trabalha nessas pesquisas em Sergipe, ele responde: “Nós estamos estudando isso aqui há 10 anos”. Ao ser perguntado se esse tempo já poderia aproximar os estudos de uma nova etapa, Herbert admite: “Pode ser. Pode ser”.
E explica o que mudou: “Antes a gente nem sabia se essas coisas existiam. Hoje a gente sabe onde existe. Nós estamos trabalhando agora para tornar isso econômico. Quer dizer, viabilizar, saber quanto tem, a quantidade, como fazer”.
A declaração não significa que uma mina esteja próxima. Mostra que a pesquisa avançou da identificação inicial para uma fase em que os cientistas buscam dimensionar as ocorrências e avaliar seu potencial econômico. “As nossas pesquisas estão nesse ponto de cartografar as intrusões, tirar as rochas, e vários minerais potenciais para exploração estão sendo encontrados. Mas daí isso ir para a indústria tem um passo muito grande”, ressalta.
Herbert usa o ouro como exemplo para mostrar como a viabilidade depende também do mercado: em determinadas condições, pode ser rentável processar toneladas de rocha para obter poucos gramas do metal; em outras, o custo torna a exploração inviável.
“Nós estamos trabalhando para o futuro, vendo as potencialidades, caracterizando, de forma que daqui a pouco possa atrair investimentos para o Estado de Sergipe e ele poder explorar esses bens minerais.”
O conhecimento produzido pela UFS já desperta atenção empresarial. Questionado se mantém contatos com empresas interessadas, Herbert confirma: “Temos contato. Temos contatos.”
“Já existe o interesse delas no assunto e a gente continua trabalhando aqui”, acrescenta. O professor não identifica as companhias. Quando perguntado sobre os nomes, responde: “Nesse momento não dá para a gente estar citando”.
Também evita revelar informações específicas sobre determinadas áreas estudadas por compromissos de confidencialidade. Neste momento, portanto, é possível afirmar que existem contatos e interesse empresarial, mas não que haja mina definida ou exploração comercial prevista.
Ao fazer uma avaliação mais ampla, Herbert demonstra otimismo com o potencial geológico do Estado. Questionado se os granitos estudados pela UFS poderiam representar no futuro uma nova oportunidade econômica para Sergipe, em um momento em que o Estado também se prepara para ampliar a exploração de petróleo e gás em águas profundas, ele responde:
“Pode. Granito é uma rocha muito promissora para gerar esses metais. São vários deles que você usa no dia a dia e nem sabe. E eles estão ali presentes. E os trabalhos estão sendo feitos.”
Ao ser provocado sobre a riqueza mineral de Sergipe, resume: “Estamos sim. Estamos sim, com grandes potencialidades.” Os trabalhos de Herbert se relacionam às pesquisas das quais participa a professora Maria de Lourdes da Silva Rosa, também da UFS. Esses estudos já permitiram identificar em Sergipe minerais portadores de elementos terras raras e minerais relacionados aos chamados minerais críticos.
Maria de Lourdes define o processo como um “trabalho de formiguinha”: conhecer as rochas, identificar os minerais e caracterizar os elementos presentes. Segundo ela, Sergipe possui rochas de natureza mais alcalina consideradas potenciais para a presença desses elementos, e os projetos contam com apoio da Fspitec, da UFS e do CNPq.
Maria de Lourdes chama atenção para uma etapa que vai além da geologia: processamento químico e refino metalúrgico. Para a pesquisadora, o Brasil precisa dominar essas tecnologias para agregar valor aos recursos minerais, em vez de se limitar à exportação de matérias-primas. “Não podemos ficar vendendo o solo bruto para outro país, para esse país processar e ganhar mais dinheiro”, afirma.
Esse desafio estará no centro da Missão Fulbright–CNPq sobre Terras Raras e Minerais Críticos, da qual Maria de Lourdes participará nos Estados Unidos entre 19 de setembro e 1º de outubro de 2026. Ela será uma das dez integrantes da delegação brasileira, a única representante do Nordeste e a única geóloga do grupo. A missão passará pela Virginia Tech, pela Colorado School of Mines e pelo Ames National Laboratory.
A expectativa é ampliar a cooperação científica, criar oportunidades de intercâmbio e aproximar os pesquisadores brasileiros de laboratórios e tecnologias ainda não disponíveis no país.
Maria de Lourdes também chama atenção para a posição da China no processamento e refino das terras raras e defende que o Brasil desenvolva capacidade própria nessa etapa. Ela recorre à experiência brasileira com a exploração de petróleo em águas profundas para mostrar que o desenvolvimento tecnológico é possível. “Nós conseguimos fazer uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, criar tecnologia. Então, se a gente acreditar, a gente faz.”
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