sexta-feira, 20/02/2026
Campanha da Fraternidade 2026

Fraternidade e Moradia — considerações sobre a dignidade humana e a sacralidade do ser

Compartilhe:

 

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Em uma passagem do romance Helena, de Machado de Assis, o pai natural da protagonista da obra, Salvador, em diálogo com Dr. Estácio afirma: “(…) Na abastança é impossível compreender as lutas da miséria” (p. 105 – edição de 1995). Atemporal, esta assertiva do campo literário brasileiro vem bem a calhar com o tema da Campanha da Fraternidade de 2026: “Fraternidade e Moradia”. O qual nos convida a pensar soluções para os problemas daquelas pessoas que são mais pobres, “(…) especialmente aquelas sem chão, teto e corpo, pois são elas que mais nos evangelizam” (Dom Gabriel dos Santos – Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Salvador).

Na Oração da CF deste ano, o trecho final diz: “(…) dai-nos a graça da conversão, para ajudarmos a construir uma sociedade mais justa e fraterna, com terra, teto e trabalho para todas as pessoas, a fim de, um dia, habitarmos, convosco, a casa do céu”. Antes que alguém pense que isso é coisa de comunismo e que, em razão disso, não segue as orientações da CNBB, devo dizer que questões como essas e outras estão postas na Doutrina Social da Igreja. Talvez os mais conservadores radicais nem queiram saber disso, ocupados que estão demais, mais a contemplar do que a praticar a caridade, sobretudo neste período do Tempo Litúrgico da Quaresma.

A Doutrina Social da Igreja, integrante da chamada Teologia da Moral Social da Igreja Católica preconiza, conforme nos lembra a professora Larissa Fernandes Menegatti (2018), que apresenta a dimensão social do Evangelho como uma obrigação para aqueles que se propõem a seguir Jesus Cristo, não se trará, pois, de uma condição ou uma escolha. Todo cristão, não sendo diferente o católico, é instado a assumir o seu viés profético de identificação, denúncia e apontamento das soluções para as principais questões que afetam a dignidade humana, notadamente no campo econômico, bem como político e social.

Nesse sentido, a CF de 2026 nos convida a refletirmos sobre um grave problema social de nosso tempo, mais de perto, no Brasil, para o qual a campanha foca e se dirige. Trata-se da falta de moradia, com vistas a combater o déficit habitacional e a invisibilidade social. A CF tem como ícone este ano o monumento “Cristo Sem Teto” (obra de Timothy Schmalz, numa clara alusão à identificação de Jesus Cristo com os vulneráveis, com os moradores de rua.

Dados recentes revelam um escândalo sobre o qual os poderes públicos pouco fazem para minimizar ou mesmo extinguir. São cerca de 365.822 pessoas que moram nas ruas, sem dignidade alguma. Afora isso, outros cerca de 12 milhões de imóveis estão vazios no país. Este tem sido um fenômeno não somente nas grandes capitais, mas também no interior do país. Na cidade de Lagarto isso já é uma realidade, que particularmente me incomoda e que há anos venho chamando a atenção dos seus últimos prefeitos, sobretudo para a necessidade de se construir abrigos adequados, a curto prazo, e melhorar as suas condições de vida, a médio prazo.

Mas e a Igreja, que tem a ver com isto? Isto não é obrigação do poder público? Em geral, é o que perguntam nesses tempos de CF. De fato, cabe ao poder público criar as condições para garantir vida digna para todas as pessoas, notadamente para as mais necessitadas. Mas, e quando o poder público se omite ou pouco ou nada faz? Quem deve ser profética a cobrar e a denunciar, se necessário? Sim, a Igreja. E isto também é papel do cristão, como já o disse antes. E, até mesmo, como colaboradora e mesmo parceira do poder público na busca de soluções para os problemas de ordem habitacional e suas consequências nefastas para a vida humana.

Fato é que não podemos mais ficar inertes. Para além da oração e da contemplação, a concretização do Reino de Deus na Terra quer e pede AÇÃO. É para isso que foi criada a CF lá entre 1962 e 1964. Sempre com essa perspectiva da dimensão social do Evangelho, como neste ano, cujo lema é “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Na abertura da CF na última quarta-feira, o bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB, dom Ricardo Hoepers assim se expressou “Não podemos naturalizar que alguém viva sem teto e aceitar que crianças cresçam em áreas de risco”, acrescentando ainda que “A conversão que Deus pede é integral. Não é apenas interior, mas também relacional, estrutural e social”.

 

Compartilhe:

Sobre Claudefranklin Monteiro

Claudefranklin Monteiro Santos
Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

Leia Também

A ficha caiu — memórias de um orelhão

  Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)   Mal o objeto teve tempo de despertar …

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WhatsApp chat