Entre o esquadro do Ocidente e o lótus do Oriente, um rito que ousou unir tradição maçônica e misticismo teosófico para iluminar a jornada interior Imagem gerada a partir da IA
Por Tácio Brito (*)
A Maçonaria, ao contrário do que muitos dos meus irmãos pensam, não é um monólito. É uma árvore viva, com dois troncos principais que, embora partindo da mesma raiz, cresceram em direções distintas: a Maçonaria tradicional, que encontra sua força na preservação da tradição, e a Maçonaria liberal, que prioriza a liberdade absoluta de consciência. E é neste segundo ramo, com um solo filosófico mais aberto à experimentação, que novos ritos florescem, e poucos são tão singulares quanto o Dharma Working.
Este ritual representa mais do que uma simples adaptação. É uma verdadeira escola filosófica, uma síntese criativa nascida no ambiente liberal da Maçonaria Mista, que nos convida a repensar os limites de nossa Ordem.
Para entender o Dharma Working, precisamos voltar ao final do século XIX, um período de intensa fermentação social e espiritual. Em 1893, em Paris, Maria Deraismes e Georges Martin fundaram a Ordem Maçônica Mista Internacional “Le Droit Humain”, desafiando a exclusividade masculina. É neste cenário que entra em cena Annie Besant, uma das figuras mais extraordinárias de sua época: socialista, feminista, defensora da independência indiana e proeminente líder da Sociedade Teosófica.
Iniciada na “Le Droit Humain” em 1902, Besant tornou-se a embaixadora da Maçonaria Mista no mundo anglófono. Contudo, estava insatisfeita com os rituais franceses seculares. Em uma negociação histórica, ela reinstaurou a exigência da crença em um Ser Supremo. A verdadeira alquimia aconteceu em 1904, em Benares, na Índia. Lá, com seu parceiro esotérico, o clarividente Charles Webster Leadbeater, Besant desenvolveu o Ritual Dharma. Partindo de rituais ingleses, eles os infundiram com a profundidade do ocultismo teosófico, introduzindo invocações a elementais, “Cargas Místicas” e uma atmosfera cerimonial rica em simbolismo.
É crucial entender que a inovação do Dharma Working não reside em uma longa escada de graus filosóficos, como se vê em outros ritos. Sua força e singularidade, nascidas da visão de Annie Besant e Charles Webster Leadbeater, concentram-se inteiramente nos três graus simbólicos fundamentais da Maçonaria Simbólica (Craft Degrees). A crença de seus criadores era que esses três pilares, quando corretamente interpretados, continham em si toda a essência esotérica necessária para a transformação do iniciado.
A estrutura, portanto, é a da Loja Azul tradicional, mas cada grau é revisitado e enriquecido com uma profundidade teosófica e mística, transformando a jornada moral em uma jornada de evolução da alma.
O sistema também cobria os graus colaterais de Maçom da Marca e o Sagrado Arco Real, trazendo uma roupagem própria e interpretação baseada na filosofia teosófica.
Embora o Dharma Working puro (de 1904) seja hoje uma peça histórica, sua alma e sua metodologia não apenas sobreviveram, mas evoluíram. O ritual metamorfoseou-se em variantes diretas, principalmente o Lauderdale Working, desenvolvido a partir de 1925 com refinamentos até a década de 1960. Esta evolução, longe de ser uma diluição, foi um processo de adaptação que manteve o núcleo teosófico — as invocações, a atmosfera cerimonial, as Cargas Místicas — enquanto se integrava a contextos mais amplos.
Em 2025, esta linhagem ritualística permanece ativa. A Universal Co-Masonry, uma obediência mista independente com sede nos EUA, pratica explicitamente o Lauderdale Working como a base para seus três primeiros graus que integra o que eles chamam de Ancient and Accepted Universal Rite (um sistema que mescla REAA e York Rite que vai do 4 ao 33). Com cerca de 29 lojas ativas espalhadas pelos EUA, Brasil, Chile, Filipinas e outras nações, ela é a principal guardiã desta tradição. Similarmente, diversas federações da ordem internacional “Le Droit Humain”, como a Britânica, a Australiana e a Sul-Africana, utilizam o Lauderdale como um de seus principais rituais, com estimativas indicando que entre 30 a 50 lojas globalmente ainda trabalham ativamente sob esta herança esotérica.
Do ponto de vista antropológico, o Dharma Working é um artefato fascinante. É um rito de passagem que, como descrito por Arnold van Gennep, guia o iniciado por um processo de separação do mundo “profano”, imersão em um estado liminar de aprendizado místico e, finalmente, reintegração como um ser transformado.
Mas ele é mais do que isso. É um exemplo de hibridismo cultural nascido do encontro colonial. Besant e Leadbeater, imersos no orientalismo da Teosofia, pegaram conceitos orientais como o Dharma e os usaram para revitalizar o que eles viam como uma tradição esotérica ocidental decadente. É um ato de bricolage, como o descreveria Lévi-Strauss, a montagem de elementos díspares para criar uma prática nova e coerente.
Crucialmente, ao insistir na iniciação de mulheres em pé de igualdade, o rito subverte a antropologia tradicional das sociedades secretas masculinas.
Para Leadbeater e Besant, o maçom não está apenas simbolizando a construção de um templo; ele está literalmente participando de uma obra cósmica.
O Dharma Working, em suas formas evoluídas como o Lauderdale, permanece como um testemunho da visão de seus criadores. Sua prática contínua em dezenas de lojas ao redor do mundo prova a resiliência de uma abordagem que ousou ser inclusiva, abertamente mística e global em sua perspectiva. Ele nos desafia a olhar para além de nossas próprias definições de regularidade e a reconhecer a beleza e o valor em ramos da árvore maçônica que escolheram crescer em direções diferentes, um lembrete luminoso de que a busca pela luz pode assumir muitas formas.
Referências:
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