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	<title>Arquivo para Domingo em Desbaste - Só Sergipe</title>
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	<description>Notícias de Sergipe levadas a sério.</description>
	<lastBuildDate>Sun, 04 Oct 2026 00:49:05 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Soberba ironia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rocelito Paulo Pinto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2026 05:00:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
		<category><![CDATA[análise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Do Titanic ao Titan, de impérios a grandes empresas, a história expõe os riscos de quando poder, competência e autoridade alimentam a ilusão de invulnerabilidade &#160; Por Rocelito Paulo Pinto (*) &#160; Na qualidade de seres pensantes e gregários que somos — ou que, pelo menos, deveríamos ser —, construímos instituições destinadas a preservar a &#8230;</p>
<p>O post <a href="https://www.sosergipe.com.br/soberba-ironia/">Soberba ironia</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.sosergipe.com.br">Só Sergipe</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsoberba-ironia%2F&amp;linkname=Soberba%20ironia" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsoberba-ironia%2F&amp;linkname=Soberba%20ironia" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsoberba-ironia%2F&amp;linkname=Soberba%20ironia" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsoberba-ironia%2F&amp;linkname=Soberba%20ironia" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fsoberba-ironia%2F&#038;title=Soberba%20ironia" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/soberba-ironia/" data-a2a-title="Soberba ironia"></a></p><h4></h4>
<h4><em><span style="color: #008000;">Do Titanic ao Titan, de impérios a grandes empresas, a história expõe os riscos de quando poder, competência e autoridade alimentam a ilusão de invulnerabilidade</span></em></h4>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Por Rocelito Paulo Pinto (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">N</span>a qualidade de seres pensantes e gregários que somos — ou que, pelo menos, deveríamos ser —, construímos instituições destinadas a preservar a ordem, defender a sociedade, cultivar tradições e proteger aquilo que conquistamos como humanidade.</p>
<p>Criamos leis, estabelecemos limites, instituímos atribuições e conferimos autoridade a pessoas para que determinadas funções sejam exercidas em benefício da sociedade da qual fazemos parte, para que, assim, sobressaiam a justiça e a equidade que harmonizam as relações. A expectativa de tudo isso é promover a igualdade entre os iguais, perante a lei, e prevenir a supremacia da desigualdade pretendida pelos desiguais.</p>
<p>Tudo prospera até que, num inusitado momento, a autoridade, simulando servir à sociedade, começa a servir-se a si própria. É quando a autoridade deixa de se compreender como instrumento da sociedade e enxerga-se como a própria finalidade, não só da sociedade, mas também da autoridade que deveria exercer.</p>
<p>É nesse momento que se identifica a soberba.</p>
<p>A soberba é o prisma pelo qual a autoridade se conduz, ao acreditar que suas decisões são necessárias e suficientemente corretas; sua posição social a torna superior aos demais; a competência que lhe foi conferida a torna infalível; seu poder a torna invulnerável e inacessível.</p>
<p>Há algo particularmente perigoso neste contexto, do qual nem a autoridade desconfia: a soberba sempre antecede a queda, mas persiste até o último segundo a negar que está diante dela. E assim, o soberbo, quanto mais confiante na própria invulnerabilidade, mais incapaz de perceber os alarmes.</p>
<p>Porém, quando a realidade se apresenta nas suas cores verdadeiras, nada mais se distingue entre a soberba e a derrocada, nem mesmo a inexistência do fundo em um abismo!</p>
<p>É o que se permite deduzir quando se analisa momentos específicos da humanidade no esplendor desumano de sua soberba.</p>
<p><strong>O Titanic representava, no início do século XX, o extraordinário avanço da engenharia naval.</strong> Grande, luxuoso, sofisticado e dotado de recursos de segurança excepcionais para sua época, tornou-se símbolo de uma confiança extraordinária no domínio humano sobre o oceano.</p>
<p>A imagem de que aquele navio era impossibilitado de afundar tornou-se parte de sua história; todavia… o Titanic afundou em sua primeira viagem! Apesar dos vários alertas recebidos sobre a presença de tais perigos, na madrugada de 15 de abril de 1912, na viagem inaugural, após colidir com um iceberg, o navio desapareceu no Atlântico, levando consigo mais de 1.500 vidas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_101708" aria-describedby="caption-attachment-101708" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Stower_Titanic-scaled.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-101708 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Stower_Titanic-scaled.jpg" alt="Titanic" width="2560" height="1753" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Stower_Titanic-scaled.jpg 2560w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Stower_Titanic-300x205.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Stower_Titanic-1024x701.jpg 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Stower_Titanic-768x526.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Stower_Titanic-1536x1052.jpg 1536w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Stower_Titanic-2048x1402.jpg 2048w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Stower_Titanic-110x75.jpg 110w" sizes="(max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></a><figcaption id="caption-attachment-101708" class="wp-caption-text">Naufrágio do Titanic, de Willy Stöwer, ilustração de 1912 &#8211; Wikipedia</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p>O aspecto mais temerário não estava no iceberg, mas naquilo que um bloco flutuante revelaria: nenhuma tecnologia elimina a vulnerabilidade humana; pode atenuá-la, mas não suprimi-la; pode preveni-la, mas não eliminá-la. Contudo, o inimaginável aconteceu: a tecnologia em sua máxima potência sucumbiria à primitividade de uma montanha em sua patética trajetória errática.</p>
<p><strong>Em 1941, o encouraçado alemão Bismarck, o </strong><em><strong>“Inafundável”</strong>,</em> refletia a expressão máxima do poderio naval alemão. Era enorme, fortemente armado, dotado de motores potentes e estruturado como uma fortaleza para resistir aos torpedos inimigos, sendo considerado uma das máquinas de guerra mais poderosas então construídas.</p>
<p>O encouraçado zarpou em sua primeira missão oficial de combate a 19 de maio de 1941. Oito dias depois, em 27 de maio, o “<em>Inafundável</em>” repousava no fundo do Atlântico Norte.</p>
<p>A lição que se apresenta não está escrita no destino inesperado de um navio. Está na diferença entre aquilo que se projeta como poderoso e o que se percebe como invencível. O fato de ser poderoso não elimina limites nem vulnerabilidades, mas revela uma página de suscetibilidades quando a estratégia contrária não se curva ao peso do poder imposto.</p>
<p>As Sagradas Escrituras apresentam outro exemplo.<strong> O povo de “Sinar” deliberou construir uma torre cujo topo alcançasse os céus.</strong> A imagem é poderosa porque não projeta somente a expressão de uma arquitetura em sua genialidade, mas porque fala da exponencial expectativa humana de superar os limites perceptíveis tão somente pela força da convicção desmedida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_101712" aria-describedby="caption-attachment-101712" style="width: 1155px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Captura-de-tela-2026-10-03-114728.png"><img decoding="async" class="wp-image-101712 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Captura-de-tela-2026-10-03-114728.png" alt="Torre de Babel" width="1155" height="837" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Captura-de-tela-2026-10-03-114728.png 1155w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Captura-de-tela-2026-10-03-114728-300x217.png 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Captura-de-tela-2026-10-03-114728-1024x742.png 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Captura-de-tela-2026-10-03-114728-768x557.png 768w" sizes="(max-width: 1155px) 100vw, 1155px" /></a><figcaption id="caption-attachment-101712" class="wp-caption-text">A Torre de Babel por Pieter Bruegel, o Velho (1563) Wikipédia</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p>O resultado foi uma Torre de Babel consagrada na confusão das línguas e na dispersão dos homens daquela sociedade. A mensagem é simples: há alturas que não se alcançam pela força, pelo orgulho ou pela imposição.</p>
<p><strong>Na mitologia grega, Dédalo constrói asas para fugir da prisão de Creta com seu filho Ícaro.</strong> Antes do voo, o pai o adverte: não deveria voar muito baixo, nem muito alto. Ícaro, fascinado pela própria capacidade de voar, desobedece. Aproxima-se demais do Sol, a cera derrete e ele cai.</p>
<p>A mensagem não é nada sutil: não foi o voo que derrubou Ícaro, foi a incapacidade de reconhecer os limites do próprio voo. A mesma capacidade que permitiria ao homem elevar-se tornar-se-ia o instrumento de sua queda, por não acreditar haver limites para sua ascensão.</p>
<p><strong>O rei Creso, da Lídia, era extraordinariamente rico e poderoso.</strong> Diante da aproximação beligerante de Ciro, rei da Pérsia, Creso procurou o Oráculo de Delfos e recebeu dele uma resposta que poderia ser interpretada de diferentes maneiras: se atravessasse o rio Hális, destruiria um grande império.</p>
<p>Creso acreditou que o império a ser destruído seria o persa. Atravessou o rio, foi derrotado e conheceu, da maneira mais dolorosa possível, que o maior adversário de um grande império nem sempre é o inimigo que ousa romper fronteiras. Aqui encontramos uma forma intelectualmente sofisticada da soberba: Creso não ignorou a informação. Ele a recebeu, mas interpretou-a de acordo com aquilo que desejava acreditar.</p>
<p>A soberba também funciona assim: ela não torna necessariamente o homem surdo, mas o impede, às vezes, de escutar aquilo que contraria suas próprias conveniências.</p>
<p><strong>Em 480 a.C., Xerxes I lançou uma gigantesca invasão contra a Grécia.</strong> Uma tempestade, ao que tudo indica, natural, destruiu uma ponte de barcos que havia sido construída para permitir a passagem de seu exército. Contrariado, segundo a tradição narrada por Heródoto, Xerxes teria ordenado que o mar fosse castigado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_101711" aria-describedby="caption-attachment-101711" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/rei-xerxes.webp"><img decoding="async" class="wp-image-101711 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/rei-xerxes.webp" alt="Rei Xerxes" width="1024" height="805" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/rei-xerxes.webp 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/rei-xerxes-300x236.webp 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/rei-xerxes-768x604.webp 768w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a><figcaption id="caption-attachment-101711" class="wp-caption-text">Rei Xerxes ordenou que dessem mil chicoteadas no mar Imagem: IA</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p>A imagem é extraordinária. O homem soberbo não aceita que a realidade lhe diga “não”, ignora prepotente a própria fragilidade, tenta impor-se contra a natureza em um esforço inútil. Só uma verdade se configura nesse episódio: a de que a realidade não acata o personalismo da autoridade soberba.</p>
<p>Em razão disso,<strong> Napoleão Bonaparte é, talvez, um dos exemplos mais fascinantes</strong>. Não era um chefe incompetente, muito pelo contrário, sua invulgar inteligência militar, sua capacidade estratégica e sua extraordinária habilidade política fizeram dele um dos personagens históricos mais estudados.</p>
<p>E justamente por isso seu exemplo é tão importante, porque demonstra que a autoridade, ao tornar-se soberba, deixa de reconhecer os limites da própria competência.</p>
<p>Em 1812, Napoleão invadiu a Rússia. Distâncias imensas, dificuldades logísticas, escassez de suprimentos, desgaste das tropas, retirada estratégica dos russos e o rigor do inverno transformaram a campanha em uma catástrofe. Depois veio a Batalha de Waterloo e a soberba o destituiu da autoridade que exercia.</p>
<p>Napoleão não fracassou porque era incapaz. Fracassou, em grande medida, porque sua extraordinária competência alimentou a convicção de que sua estratégia superaria qualquer obstáculo, atestando que aquilo que nos torna grandes, pela soberba, pode se transformar no degrau que nos derruba.</p>
<p><strong>Em 1588, Filipe II da Espanha enviou contra a Inglaterra uma gigantesca frota naval.</strong> A história a consagraria como a <em>“Armada Invencível”</em>. A ironia surge irresistível diante dessa lógica inusitada: a estratégia inglesa, as dificuldades logísticas, os problemas de comunicação, as tempestades e as próprias limitações do plano de invasão contribuíram para o fracasso, e a <em>“Armada Invencível”</em> foi derrotada.</p>
<p>A expressão “<em>invencível</em>” carrega consigo uma perigosa certeza e talvez essa seja uma das características mais perversas da soberba, porque ela transforma uma qualidade em identidade: não basta ser forte, é preciso ser <em>“o mais forte”</em>; não basta vencer, é preciso ser <em>“invencível”</em>.</p>
<p><strong>Em 28 de janeiro de 1986, o ônibus espacial Challenger explodiu pouco depois do lançamento.</strong> Sete astronautas faleceram. O mais doloroso é que havia sinais anteriores de que algo não estava correto e, se não fosse a certeza soberba, essas vidas poderiam ter sido poupadas.</p>
<p>Os engenheiros já conheciam os problemas relacionados aos anéis de vedação dos foguetes. Havia também preocupações relacionadas às baixas temperaturas no dia do lançamento. Mesmo assim, a missão foi autorizada por quem possuía autoridade para adiá-la.</p>
<p>A investigação posterior demonstrou que o problema não se restringia a uma falha mecânica, mas decorria muito mais de uma falha de decisão, em razão de uma cultura organizacional que havia aprendido a conviver com riscos crescentes porque, em ocasiões anteriores, e similares, nada havia acontecido.</p>
<p>E aí nos deparamos com uma das menções mais perigosas quando pronunciadas no escopo de uma organização: <em>“Já fizemos isso antes e nada aconteceu.”</em> O fato de termos sobrevivido ao risco ontem não significa que estaremos protegidos dele amanhã.</p>
<p><strong>Em 26 de abril de 1986, ocorreu o desastre de Chernobyl.</strong> Falhas de projeto, procedimentos inadequados, decisões operacionais, problemas de comunicação, pressão organizacional e desprezo por sinais de alerta compuseram uma cadeia de acontecimentos que terminou em uma das principais tragédias nucleares da humanidade.</p>
<p>Porém, antes da explosão, surgiu uma expressão que mereceria atenção porque comunga numa só ação confiança e descaso, soberba e desprezo: <em>“Está sob controle.”</em></p>
<p>Quantas tragédias prosperam exatamente assim? Alguém vê o problema, alguém alerta, alguém responde: <em>“Está sob controle.” </em>Até que a realidade, não podendo mais ser ignorada, vem e pergunta: <em>“Sob controle de quem?”</em></p>
<p><strong>Em 2008, o Lehman Brothers entrou em falência.</strong> Era uma instituição gigantesca, cercada por sistemas de gerenciamento, políticas, controles e monitoramento de riscos que apresentavam indicadores referenciados entre os mais respeitados. Mas havia uma crença por trás de tudo aquilo: <em>“a empresa era grande demais para quebrar!”</em><em>.</em> Quebrou…</p>
<p>E a análise econômica aponta um indicador preocupante, que vale para qualquer instituição: não existe tamanho suficiente para tornar uma autoridade ou uma instituição imune às consequências de seus próprios erros. Ou seja, nem toda soberba termina em tragédia humana.</p>
<p><strong>O Concorde foi uma das principais conquistas da engenharia aeronáutica do século XX</strong>: voava acima da velocidade do som, ligava Londres a Nova York em três horas e meia, o que permitia decolar do aeroporto britânico após o pôr do sol e pousar no americano ainda de dia, na mesma data.</p>
<p>Era o símbolo de luxo, tecnologia e velocidade. Mas também enfrentava limitações econômicas, ambientais e operacionais. A tecnologia era extraordinária, porém, o modelo econômico adotado não conseguiu sustentá-la. E isso nos ensina outra coisa: ser tecnicamente possível não significa ser economicamente viável.</p>
<p><strong>A Eastman Kodak Company</strong> dominou o mercado mundial da fotografia durante décadas. No entanto, a imagem que se eternizou em sua história é a de uma cruel ironia: em 1975, um de seus engenheiros, Steven Sasson, desenvolveu uma das primeiras câmeras digitais, produzindo uma tecnologia que revolucionaria o futuro da sociedade.</p>
<p>Mas o sucesso do passado dificultaria a aceitação do futuro. A Kodak não ignorava o potencial da nova tecnologia, mas ela não conseguiu compreender o que aquela tecnologia significava para o seu próprio modelo de negócio. Acabou se tornando vítima do próprio sucesso. A nova tecnologia se desenvolveu e dominou a sociedade. A Kodak, perdida em sua própria imagem, inventaria o futuro, mas entraria em crise e conheceria a falência.</p>
<p>Muitas vezes, não é a iminência do fracasso que nos impede de mudar, mas a crença no sucesso inabalável que alimenta a soberba.</p>
<p><strong>A Blockbuster dominava o mercado de locação de filmes.</strong> Enquanto isso, a Netflix era uma empresa pequena de aluguel de DVDs pelo correio. O mundo mudou. A sociedade do consumo se reformulou rapidamente. A Netflix percebeu a velocidade dessa mudança, mas a Blockbuster, presa ao tamanho do próprio império, não conseguiu acompanhá-la. O resultado, todos conhecemos: uma desapareceu, a outra transformou-se em uma das mais expressivas plataformas de entretenimento do mundo.</p>
<p>A lição aqui observada é a de que a soberba olha para o tamanho e para a força, enquanto a inteligência olha para o horizonte e para a necessidade de alteração de rumo.</p>
<p><strong>O Império Romano atingiu dimensões extraordinárias.</strong> Seu poder militar, político, econômico e cultural dominou vastos territórios, mas… cresceu tanto que se transformou numa espécie de polvo sem conexão com os tentáculos.</p>
<p>Em 395, o Império Romano foi definitivamente dividido entre Oriente e Ocidente. Em 476, Rômulo Augústulo foi deposto, tornando-se marco tradicional utilizado para assinalar a queda do Império Romano do Ocidente.</p>
<p>A Roma eterna não desapareceu em um único dia. Foi se transformando, foi envelhecendo, foi perdendo sua capacidade de sustentar aquilo que havia construído. E essa talvez seja uma das mais significativas lições de Roma: nenhuma civilização se torna eterna apenas porque acredita ser.</p>
<p><strong>Em junho de 2023, o submersível Titan, da OceanGate, implodiu </strong>durante uma expedição aos destroços do Titanic. Cinco pessoas pereceram. O episódio trouxe novamente ao debate temas como engenharia, certificação, limites experimentais, advertências de especialistas e excesso de confiança.</p>
<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_101716" aria-describedby="caption-attachment-101716" style="width: 1909px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Titan_submersible_on_the_ocean_floor.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-101716 size-full" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Titan_submersible_on_the_ocean_floor.jpg" alt="Destroços do Titan no leito do oceano" width="1909" height="1080" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Titan_submersible_on_the_ocean_floor.jpg 1909w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Titan_submersible_on_the_ocean_floor-300x170.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Titan_submersible_on_the_ocean_floor-1024x579.jpg 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Titan_submersible_on_the_ocean_floor-768x434.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Titan_submersible_on_the_ocean_floor-1536x869.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 1909px) 100vw, 1909px" /></a><figcaption id="caption-attachment-101716" class="wp-caption-text">Destroços do Titan no leito do oceano Foto: United States Coast Guard/Wikipédia</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um século após a humanidade construir um navio que atravessaria incólume o oceano e conheceria o limite de sua própria segurança, a mesma humanidade desceria ao fundo do mesmo oceano para visitar seus destroços, se deparando novamente com a mesma lição: a de que o ser humano pode ampliar seus limites, mas não pode eliminá-los.</p>
<div class="box shadow  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<p><em><strong>Mas, afinal, quando surge a soberba?</strong></em></p>
<p>Não precisamos procurar grandes impérios, navios, guerras, empresas ou catástrofes para encontrá-la. <strong>A soberba se apresenta quando alguém transforma conhecimento em onisciência; poder em onipotência; riqueza em invulnerabilidade; cargo em superioridade; beleza em distinção; inteligência em infalibilidade.</strong></p>

			</div></div>
<p>O mecanismo é quase sempre o mesmo. Primeiro: <em>“Eu consigo.”  </em>Depois: <em>“Eu sei.” </em>Em seguida: <em>“Eu controlo.”</em> Então: <em>“Isso não acontecerá comigo.”</em> Até que a realidade responde: <em>“Aconteceu.”</em></p>
<p>A soberba não consiste em acreditar que podemos alcançar as alturas; consiste em acreditar que, chegando lá, não haveremos de cair. A soberba não consiste no fato de nos tornarmos poderosos; consiste em acreditar que o nosso poder é infalível. E talvez seja por isso que a soberba seja tão perigosa para quem exerce autoridade.</p>
<p>A atribuição de autoridade não existe para servir à autoridade instituída: existe para servir à sociedade. Instituições não são construídas para proteger seus dirigentes: são construídas para proteger aqueles que lhes conferiram legitimidade.</p>
<p>Quando uma autoridade passa a considerar-se acima da crítica, acima das regras e acima dos limites, ela deixa de exercer poder em nome de uma instituição e começa a exercer poder em nome de si mesma. É aí que a instituição começa a adoecer. É aí que a autoridade começa a transformar-se em ídolo, e todo ídolo, ou mais cedo ou mais tarde, encontra alguém que percebe que ele é feito de matéria humana, ocasião em que a admiração dá lugar à decepção.</p>
<p>Ademais, autoridade não se confunde com liderança. Liderança não nasce do privilégio do berço, não se impõe com o cargo, não decorre da patente, não se produz pela riqueza. Liderança se constrói: com conhecimento, mas também com humildade; com autoridade, mas também com responsabilidade; com coragem, mas também com prudência; com convicção, mas também com a capacidade de ouvir quem dela discorda.</p>
<p>O líder não é aquele que acredita não poder cair; é aquele que sabe da possibilidade de cair e, por isso mesmo, olha para onde pisa e caminha por onde olha. Já o sábio é aquele que tem consciência de que a sociedade é uma construção humana permanente e, a si, confere o poder de conhecer novas tecnologias e formas de conhecimento, sem permitir que elas corrompam sua essência.</p>
<p>Mas a liderança sábia somente será verdadeiramente admirável quando compreender que igualdade significa respeito às diferenças de opiniões e sentimentos, sem que elas se transformem em adversidade; que fraternidade se conjuga com tolerância e dignidade, mas não se prostitui com a fraqueza de caráter; que liberdade se traduz na justa compreensão de que o direito de cada um encontra-se limitado pelo direito do outro.</p>
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<p>Talvez seja essa a grande vacina contra a soberba: lembrar que somos grandes o suficiente para construir, mas humanos demais para sermos invulneráveis.</p>

			</div></div>
<p>A história já nos ensinou, inúmeras vezes: o Titanic naufragou; o Bismarck afundou; a Armada “Invencível” foi vencida; Napoleão foi deposto; Challenger explodiu; Chernobyl colapsou; Lehman Brothers quebrou; Kodak desapareceu da fotografia; Blockbuster saiu de cena; Roma se reduziu a um reino de ruínas históricas.</p>
<p>E, no fundo do oceano, o Titanic repousa feito um monumento silencioso à maior de todas as ilusões humanas: a de que alguma coisa construída pela humanidade pode torná-la maior do que seus próprios limites.</p>
<p>Quando a soberba diz: <em>“Eu sou grande demais para cair”,</em> a sabedoria responde: <em>“É hora de olhar para baixo”</em>. Cumpre à autoridade instituída decidir sobre o que ouve, para poder escutar as razões que a mantêm nas alturas ou as que a impulsionam para o abismo.</p>
<p>É a ação da autoridade que demonstra ser ela escrava da soberba ou discípula da sabedoria. E, se ela servir à sociedade que lhe cabe liderar e defender, proteger e fazer evoluir, conhecerá o respeito e a admiração da humanidade. Mas, se ela se serve da sociedade para a sua própria defesa e proteção, conhecerá o peso da dor e a força da negação daqueles a quem escravizou com sua prepotência.</p>
<p>Porém, o mais catastrófico não é o fim soberbo a que se condena a autoridade invigilante, mas sim o destino de uma sociedade que agoniza impotente sob a pressão secular do oceano de leviandades; ou da que perece nas batalhas fomentadas na estratégia do orgulho dos que as comandam como rês a caminho do abatedouro; ou da que se extingue nas chamas de uma energia que não se controla pelo impulso da vontade.</p>
<p>A história da humanidade, de alguma forma, se desenvolve, mas do Titanic ao Titan, a soberba sempre se repete. Roma não espelha mais o império que já foi; todavia, ainda se observam “Napoleões” que, na sua soberba nuclear, se mantêm na confiança de que o Oráculo esteja equivocado em sua fotografia.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Onde é que a voz encontra o silêncio?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Heuller Roosewelt Silva Melo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Sep 2026 09:00:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
		<category><![CDATA[acolhimento]]></category>
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		<category><![CDATA[CVV]]></category>
		<category><![CDATA[CVV 188]]></category>
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		<category><![CDATA[prevenção ao suicídio]]></category>
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		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
		<category><![CDATA[Setembro Amarelo]]></category>
		<category><![CDATA[silêncio]]></category>
		<category><![CDATA[System of a Down]]></category>
		<category><![CDATA[Toxicity]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Heuller Roosewelt Silva Melo (*) &#160; Há silêncios que não são ausência de palavras — são excesso delas. Palavras que se atropelam dentro da gente, pensamentos que não encontram porta de saída, sentimentos que se acumulam como cartas jamais enviadas. Talvez eu tenha passado boa parte da vida tentando compreender o que existe &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Heuller Roosewelt Silva Melo (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">H</span>á silêncios que não são ausência de palavras — são excesso delas. Palavras que se atropelam dentro da gente, pensamentos que não encontram porta de saída, sentimentos que se acumulam como cartas jamais enviadas. Talvez eu tenha passado boa parte da vida tentando compreender o que existe entre a palavra e o silêncio. Já escrevi sobre a voz, sobre o vazio, inclusive sobre aquilo que nos aprisiona e sobre as pequenas frestas por onde a vida insiste em entrar. Escrevi sobre o que se quebra e sobre aquilo que, depois de quebrado, pode encontrar uma outra forma de existir. E talvez seja justamente por isso que setembro sempre me faça pensar menos no amarelo e mais naquilo que existe por trás dele. Porque, de fato, há perguntas que não procuram respostas. Procuram ouvidos. Há dores que não chegam gritando; elas se acomodam devagar. Mudam o jeito de olhar, de dormir, de conversar, de chegar e de partir. Às vezes, vestem um sorriso. Às vezes, fazem piada. Às vezes, tornam-se extremamente funcionais. E ninguém percebe que, por dentro, alguém está apenas tentando descobrir como continuar.</p>
<p>Talvez não saibamos adequadamente dar um nome clínico a todos esses abismos. Às vezes não se precise de um diagnóstico para descrever aquilo que, em determinados momentos, acontece dentro de si mesmo. Mas sei reconhecer o caos quando o encontro. Sei que já houve dias em que meu mundo interior parecia uma casa depois da tempestade: ainda de pé, mas com coisas fora do lugar, algumas janelas abertas ao vento e outras simplesmente quebradas. E talvez eu tenha aprendido ali uma coisa que só compreendemos quando o silêncio deixa de ser escolha e passa a ser esconderijo: <strong>nem sempre quem parece bem está bem.</strong> Porque aprendemos cedo demais que demonstrar tristeza incomoda. Nem sempre, demonstrar cansaço é por excesso de trabalho — ou falta dele. Nem sempre estar em sofrimento é por falta de fé — às vezes isso pouco importa. Tampouco demostrar fragilidade é frescura. Ou ainda que pedir atenção é querer aparecer. Então aprendemos a representar. Pintamos o rosto, entramos no picadeiro, atuamos e fazemos graça enquanto alguma coisa, lá dentro, vai se desfazendo em silêncio. A gargalhada arpeja. O público ri. O aplauso acontece. E ninguém percebe que, por trás do sorriso na maquiagem, há um rosto pedindo apenas que alguém permaneça ali para te dar atenção.</p>
<p>Talvez seja por isso que eu tenha aprendido a desconfiar de algumas respostas automáticas. Aquele “está tudo bem” que encerramos sem perguntar mais nada. Aquele “força” que oferecemos como quem entrega um curativo tirado de dentro da caixinha para um ralado no joelho. Aquele “isso passa” dito por quem não precisará atravessar aquela noite. Não fazemos isso necessariamente por maldade. Muitas vezes, simplesmente não fomos ensinados a lidar com a dor do outro. Queremos consertar porque não sabemos permanecer diante do que não tem conserto imediato. Queremos uma solução porque o sofrimento alheio nos lembra da nossa própria vulnerabilidade. Mas escutar não é consertar. <strong>Escutar é permanecer.</strong> É suportar alguns segundos de silêncio sem preenchê-los com conselhos. É perguntar “como você está?” e ter disposição para ouvir a resposta — inclusive quando ela não cabe naquilo que gostaríamos de ouvir. É não transformar a dor de alguém em disputa, sermão, comparação ou julgamento. Às vezes, a pessoa não precisa que você resolva sua vida. Precisa apenas descobrir que existe um lugar onde pode dizer a verdade sem ser diminuída por ela.</p>
<figure id="attachment_101534" aria-describedby="caption-attachment-101534" style="width: 355px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/09/System_of_a_Down_live_in_Mexico_2026.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-101534" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/09/System_of_a_Down_live_in_Mexico_2026-300x292.jpg" alt="Banda System of a Down" width="355" height="346" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/09/System_of_a_Down_live_in_Mexico_2026-300x292.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/09/System_of_a_Down_live_in_Mexico_2026-1024x997.jpg 1024w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/09/System_of_a_Down_live_in_Mexico_2026-768x747.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/09/System_of_a_Down_live_in_Mexico_2026.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 355px) 100vw, 355px" /></a><figcaption id="caption-attachment-101534" class="wp-caption-text">Banda System of a Down Foto: Wikipedia</figcaption></figure>
<p>Talvez a própria música já tenha me ensinado alguma coisa sobre isso. Providencialmente, enquanto estava finalizando os ajustes desse texto, o Mundo me apresentou uma entrevista de uma de minhas bandas favoritas, <em>System of a Down</em>, sobre a construção de uma de suas músicas, e há algo nessa história que me parece uma pequena metáfora sobre o que significa ser verdadeiramente escutado. Shavo Odadjian havia levado para a banda uma ideia que chamava de “<em>Version 7.0</em>”. O material quase passou despercebido&#8230; mais tarde, Daron Malakian retomou àquilo, reorganizou seus pedaços, deslocou estruturas, encontrou outras possibilidades — e, daquele encontro, nasceu <span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.letras.mus.br/system-of-a-down/39424/traducao.html" target="_blank" rel="noopener"><em>Toxicity</em></a></span>. A música não nasceu pronta na mão de uma única pessoa. Nasceu quando alguém trouxe algo que tinha dentro de si e outro alguém<strong> escutou aquilo de uma maneira capaz de fazê-lo existir de outra forma</strong>. Talvez exista algo profundamente humano nisso: às vezes, não precisamos que alguém componha nossa vida por nós. Precisamos de alguém que consiga ouvir os fragmentos que estamos trazendo e nos ajude a perceber que ainda existe música onde nós só conseguimos ouvir ruído. E há ainda outra imagem naquela música que me atravessa: o “<em>sacred silence</em>” (o silêncio sagrado). Nessa entrevista, Serj Tankian explicou que esse silêncio remete a um espaço de espiritualidade e meditação, esse lugar paradoxal onde, através dos véus do silêncio, <strong>tudo se perde e tudo se encontra</strong>. Talvez seja justamente aí que a escuta verdadeira comece: não no silêncio que abandona, mas naquele que acolhe; não no vazio que nos engole, mas naquele intervalo em que podemos, finalmente, ouvir aquilo que dentro de nós ainda não conseguiu virar palavra.</p>
<p>Talvez eu pense que precisamos abandonar a ideia de que existe uma única porta para sair do labirinto. A fé pode ser abrigo. A espiritualidade pode ser caminho. Mas nenhuma crença deveria ser usada para reduzir a dor de quem acredita na vida de outra maneira – ou de quem, naquele momento, sequer consegue acreditar. Para mim, esse <em>religare</em> começa antes de qualquer templo: começa no reencontro do ser humano consigo mesmo. O primeiro templo talvez seja esse corpo que habitamos, essa consciência que carregamos, esse “eu” que tantas vezes abandonamos enquanto tentamos corresponder ao mundo. Mas reencontrar-se não significa fazer tudo sozinho. Há momentos em que precisamos de mãos. De amigos. De família. De profissionais. De escuta especializada. De cuidado. Há momentos em que um abraço é precioso, mas não substitui um profissional preparado para acolher aquilo que não conseguimos carregar. Há momentos em que a oração sustenta, mas não substitui o tratamento. <strong>Pedir ajuda não é fraqueza. Não é fracasso. Não é falta de fé. É, muitas vezes, um dos gestos mais corajosos de quem decidiu continuar.</strong></p>
<p>Talvez seja isso que eu queira dizer neste setembro. Não apenas sobre suicídio, nem apenas sobre saúde mental, mas sobre <strong>presença</strong>. Sobre gente. Sobre nós. Sobre aquilo que escondemos para continuar funcionando. Sobre as palavras que engolimos porque não sabemos quem terá coragem de escutá-las. Sobre os silêncios que confundimos com tranquilidade. Sobre a necessidade de olhar novamente para quem está ao nosso lado e perguntar — desta vez sem pressa, sem protocolo e sem respostas prontas: <strong>“Como você está&#8230; de verdade?”</strong> E, se a resposta vier acompanhada de lágrimas, silêncio, medo ou confusão, talvez a nossa primeira tarefa não seja encontrar a frase perfeita. Talvez seja simplesmente permanecer.</p>
<figure id="attachment_101536" aria-describedby="caption-attachment-101536" style="width: 321px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/09/setembro-amarelo.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-101536" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/09/setembro-amarelo-300x211.jpg" alt="Setembro amarelo" width="321" height="226" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/09/setembro-amarelo-300x211.jpg 300w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/09/setembro-amarelo-768x539.jpg 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/09/setembro-amarelo.jpg 840w" sizes="auto, (max-width: 321px) 100vw, 321px" /></a><figcaption id="caption-attachment-101536" class="wp-caption-text">Setembro amarelo</figcaption></figure>
<p>É nesse ponto que o tema deste <strong>Setembro Amarelo</strong> — <strong>“Escutar é estar presente”</strong> — deixa de ser uma frase de campanha e passa a ser uma responsabilidade humana. Porque eu não quero que a nossa disposição para ajudar seja apenas um cronograma de comunicação, uma cor no calendário ou uma publicação bonita que desaparece quando setembro termina. A dor não respeita calendário. O vazio não conhece campanhas. A solidão não espera outubro passar. Se quisermos realmente mudar a narrativa, talvez precisemos mudar a maneira como nos relacionamos com o sofrimento. Precisamos perceber aquele colega que mudou. O amigo que se afastou. A pessoa que continua trabalhando, produzindo, cuidando de todo mundo e dizendo que está tudo bem. Não para transformar cada silêncio em suspeita, mas para não transformar o sofrimento em invisibilidade. Há uma diferença enorme entre querer salvar alguém e simplesmente <strong>não o deixar sozinho diante da própria dor</strong>.</p>
<p>Porque algumas pessoas não precisam que alguém lhes diga como viver. Precisam, primeiro, sentir que ainda existe alguém disposto a caminhar alguns passos ao lado delas.</p>
<p>E, se em algum momento for você quem estiver perdido nesse caminho, não transforme a solidão em destino. <strong>Fale como conseguir. Procure alguém. Permita-se ser ouvido. Procure ajuda.</strong> O CVV atende gratuitamente pelo <strong>188</strong>, 24 horas por dia, e os serviços de saúde podem ser portas de entrada para o cuidado. Você não precisa possuir as palavras certas para pedir ajuda. Às vezes, basta começar com as três mais difíceis:</p>
<p><strong>“Não estou bem.”</strong></p>
<p>Talvez a vida não nos peça, todos os dias, que sejamos fortes.</p>
<p>Talvez, em alguns deles, ela nos peça apenas que permaneçamos.</p>
<p>E que permitamos que alguém permaneça conosco.</p>
<p>Porque, no fim, talvez a pergunta nunca tenha sido apenas onde a voz encontra o silêncio.</p>
<p>Talvez seja:</p>
<p><strong>&#8211; Quem estará presente quando finalmente tivermos coragem de falar?</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>#ParaTodosVerem</em>: Fotografia em plano médio de um homem e uma mulher sentados frente a frente em uma mesa de madeira num café acolhedor e chuvoso ao anoitecer. O homem, à esquerda, com blazer cinza e barba, segura uma xícara azul e olha para baixo de forma pensativa. A mulher, à direita, com coque e blusa de tricô verde, olha para ele com empatia, tendo à frente uma xícara, um caderno e uma caneta. Uma grande janela com gotas de chuva revela luzes urbanas desfocadas ao fundo, criando uma atmosfera intimista com outras pessoas e estantes de livros visíveis mas sem foco.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O conto da mudança</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/o-conto-da-mudanca/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rivaldo Frias]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Sep 2026 09:00:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Congresso Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[eleições]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[política brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Previdência]]></category>
		<category><![CDATA[promessas eleitorais]]></category>
		<category><![CDATA[propaganda enganosa]]></category>
		<category><![CDATA[trabalhadores]]></category>
		<category><![CDATA[voto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Rivaldo Frias (*) &#160; Mais uma vez o povo brasileiro está sendo ludibriado por propaganda enganosa. Dessa vez, os embusteiros se preparam para as próximas eleições, a serem realizadas no dia 04 de outubro de 2026, destinadas aos cargos de presidente da República, senador, governador, deputado federal e estadual, a serem eleitos pelos &#8230;</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a class="a2a_button_whatsapp" href="https://www.addtoany.com/add_to/whatsapp?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fo-conto-da-mudanca%2F&amp;linkname=O%20conto%20da%20mudan%C3%A7a" title="WhatsApp" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_facebook" href="https://www.addtoany.com/add_to/facebook?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fo-conto-da-mudanca%2F&amp;linkname=O%20conto%20da%20mudan%C3%A7a" title="Facebook" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_google_gmail" href="https://www.addtoany.com/add_to/google_gmail?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fo-conto-da-mudanca%2F&amp;linkname=O%20conto%20da%20mudan%C3%A7a" title="Gmail" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_button_telegram" href="https://www.addtoany.com/add_to/telegram?linkurl=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fo-conto-da-mudanca%2F&amp;linkname=O%20conto%20da%20mudan%C3%A7a" title="Telegram" rel="nofollow noopener" target="_blank"></a><a class="a2a_dd addtoany_share_save addtoany_share" href="https://www.addtoany.com/share#url=https%3A%2F%2Fwww.sosergipe.com.br%2Fo-conto-da-mudanca%2F&#038;title=O%20conto%20da%20mudan%C3%A7a" data-a2a-url="https://www.sosergipe.com.br/o-conto-da-mudanca/" data-a2a-title="O conto da mudança"></a></p><p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Por Rivaldo Frias (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p class="isSelectedEnd"><span class="dropcap ">M</span>ais uma vez o povo brasileiro está sendo ludibriado por propaganda enganosa.</p>
<p class="isSelectedEnd">Dessa vez, os embusteiros se preparam para as próximas eleições, a serem realizadas no dia 04 de outubro de 2026, destinadas aos cargos de presidente da República, senador, governador, deputado federal e estadual, a serem eleitos pelos brasileiros e por milhões de sacrificados trabalhadores que já sofrem há longos anos.</p>
<p class="isSelectedEnd">Nas últimas eleições, o povo acreditou que os governantes iriam tentar fazer prevalecer os parcos direitos adquiridos pelos trabalhadores; era a “esperança da mudança”.</p>
<p class="isSelectedEnd">Ledo e cruel engano que durou muito pouco!</p>
<p class="isSelectedEnd">Hoje, esses governantes, a “Esperança do Povo”, se voltam furiosamente contra os mais famintos e oprimidos, que são exatamente aqueles milhões de brasileiros que garantiram que chegassem “lá” (nos palácios, no Congresso Brasileiro), e estes se voltaram traidoramente contra o povo que os elegeu. Hoje pedem seu voto, amanhã mandam a polícia lhe bater, mandam prendê-lo e, depois de eleitos, esquecem-se de todos.</p>
<p class="isSelectedEnd">Devia haver em nosso país uma lei que punisse realmente os praticantes da “propaganda enganosa” e que, principalmente, os políticos que acenam com promessas e sonhos mirabolantes para o povo fossem enquadrados nela, por uma simples ação popular, e que perdessem seus mandatos.</p>
<p class="isSelectedEnd">Qualquer cidadão, por mais burro que seja, sabe também que “esses programas criados pelo governo” são “Conversa de cerca Lourenço”, pois o “Brasil que come” (a grande maioria dos brasileiros ganhando salário mínimo do mínimo) não tem condições nem de sustentar dignamente sua prole. Como é que tal “Brasil que come” vai dar comida ao “Brasil que não come”?</p>
<p class="isSelectedEnd">Quase 3.000.000 (três milhões) de pessoas estão na fila do INSS esperando auxílio-doença; gente que não tem renda para botar comida na mesa; não há merenda nas escolas públicas; faltam remédios nos hospitais; a inflação bate recorde e, infelizmente, a classe política do Brasil afirma que está tudo bem e, se eleita, logo tudo vai melhorar.</p>
<p class="isSelectedEnd">Tão difícil quanto o “Fome Zero” seria implantar o “Corrupção Zero”, porque, na hora em que for eliminada, de uma vez por todas, a corrupção no país, o povo terá condições de viver melhor.</p>
<p class="isSelectedEnd">Diante desses fatos, torna-se necessária uma profunda reflexão da população brasileira: ao votar, deve analisar com profunda responsabilidade em quem irá dar seu voto, esquecendo as paixões, a ideologia política, as amizades e as simpatias; deve votar, sim, naquele de quem realmente conhece o caráter, os ideais para com os interesses nacionais e com a sofrida massa trabalhadora do país. Somente assim poderemos sonhar com o futuro dessa sofrida nação.</p>
<p class="isSelectedEnd">Resumindo: os nossos governantes vivem nababescamente em viagens internacionais, ficam hospedados nos mais luxuosos hotéis mundo afora e suas propostas sequer são citadas em documentos assinados pelas grandes potências financeiras do mundo. Em seus magníficos passeios, são bancados pelo dinheiro do sofrido povão; não têm o mínimo interesse pelos altos interesses do Brasil.</p>
<p class="isSelectedEnd">O que estamos a ver são governantes e congressistas brasileiros fazendo de tudo para penalizar mais e mais, sempre mais, o povão brasileiro, com a “bendita” reforma da Previdência, em um país onde, com quarenta anos de idade, o cidadão é velho para trabalhar, mas terá de fazer mágicas para pagar o INSS até os sessenta e cinco anos de idade. Terá que ser um verdadeiro Mandrake (mágico das histórias das revistas antigas de quadrinhos).</p>
<p class="isSelectedEnd">O homem brasileiro que vive de salário mínimo e com “trabalho-máximo”, comendo mal, sem tratamento adequado de saúde, raramente chega aos sessenta e cinco anos de idade. Com tal “futuro promissor” de aposentadoria aos sessenta e cinco anos, ele só irá conseguir se aposentar no céu (se existir céu&#8230;) e os que tiverem a sorte de viver mais alguns anos ainda terão de continuar sofrendo descontos como aposentados.</p>
<p class="isSelectedEnd">Infelizmente, de quatro em quatro anos, o proletariado sofrido se lamenta e se arrepende de ter votado!</p>
<p class="isSelectedEnd">E diz que foi ludibriado, como tantos milhões de brasileiros&#8230;</p>
<p>SOMENTE DEPOIS PERCEBEM QUE CAÍRAM NO CONTO DA MUDANÇA!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>____________________ </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Referencias Bibliográficas.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">BAND NEWS. <em>Notícias/Jornal</em>. Acesso em: 25 jun. 2026 e 15 jul. 2026.</p>
<p class="isSelectedEnd">GOOGLE. <em>Google</em>. Acesso em: 7 jul. 2026.</p>
<p>RECORD NEWS. <em>Notícias/Jornal</em>. Acesso em: 22 jun. 2026.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O aperto de mãos e o tríplice abraço fraterno</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/o-aperto-de-maos-e-o-triplice-abraco-fraterno/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Manuel Luiz Figueiroa]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 13 Sep 2026 09:00:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
		<category><![CDATA[aperto de mão]]></category>
		<category><![CDATA[cristão]]></category>
		<category><![CDATA[discurso]]></category>
		<category><![CDATA[ensinamento]]></category>
		<category><![CDATA[fraternidade]]></category>
		<category><![CDATA[irmãos]]></category>
		<category><![CDATA[Maçonaria]]></category>
		<category><![CDATA[maçons]]></category>
		<category><![CDATA[palavras]]></category>
		<category><![CDATA[reconciliação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Professor Manuel Luiz Figueiroa (*) &#160; Há momentos em que as palavras já não conseguem traduzir aquilo que o coração deseja dizer. Depois de uma divergência, de um mal-entendido ou de um período de afastamento, um simples gesto pode representar muito mais do que um longo discurso. O aperto de mãos é um desses &#8230;</p>
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<blockquote><p>Professor Manuel Luiz Figueiroa (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">H</span>á momentos em que as palavras já não conseguem traduzir aquilo que o coração deseja dizer. Depois de uma divergência, de um mal-entendido ou de um período de afastamento, um simples gesto pode representar muito mais do que um longo discurso.</p>
<p>O aperto de mãos é um desses gestos.</p>
<p>Quando duas pessoas que estiveram em lados opostos estendem as mãos e as unem, não estão necessariamente apagando o passado, mas demonstrando disposição para construir um novo caminho. É como se reconhecessem que a convivência é mais importante do que a disputa e que a paz pode ser mais valiosa do que ter razão.</p>
<h3>O ensinamento cristão</h3>
<p>Na tradição cristã, a reconciliação ocupa lugar central. Cristo ensina o amor ao próximo, o perdão e a busca pela paz. Em João 13:34-35, Jesus apresenta o amor mútuo como sinal distintivo de seus discípulos: <strong>“Amem uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar uns aos outros”</strong>.</p>
<p>Perdoar não significa necessariamente considerar correto aquilo que aconteceu. Significa não permitir que a mágoa, o ressentimento ou o desejo de vingança continuem dominando o coração.</p>
<p>A reconciliação é, portanto, uma expressão de amor, humildade e maturidade espiritual.</p>
<p>Nesse sentido, a mão estendida pode ser compreendida como um gesto cristão: não é a mão que acusa, cobra ou condena, mas a mão que oferece a possibilidade de paz.</p>
<h3>O aperto de mãos entre irmãos maçons</h3>
<p>Na tradição maçônica, o aperto de mãos possui uma dimensão simbólica de reconhecimento e fraternidade. Entre irmãos maçons, o aperto de mãos é sempre seguido do <strong>tríplice abraço fraterno</strong>, gesto que ultrapassa a simples formalidade e expressa a fraternidade que une aqueles que compartilham uma caminhada de aperfeiçoamento moral.</p>
<div class="box shadow  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<p>O aperto de mãos aproxima.</p>
<p>O abraço envolve.</p>

			</div></div>
<p>E o abraço fraterno, repetido três vezes, acrescenta ao encontro uma dimensão simbólica ainda mais profunda.</p>
<p>É importante compreender essa passagem como uma expressão ritual e fraternal própria da tradição maçônica e não como uma regra universal em outras tradições esotéricas.</p>
<h3>O significado do tríplice abraço fraterno</h3>
<p>O primeiro abraço pode representar a <strong>reconciliação</strong>: dois irmãos que estavam afastados reconhecem que a fraternidade é maior do que a divergência.</p>
<p>O segundo pode representar o <strong>perdão</strong>: não necessariamente o esquecimento do ocorrido, mas a decisão consciente de não alimentar o ressentimento.</p>
<p>O terceiro pode representar o <strong>compromisso renovado de fraternidade</strong>: a disposição de seguir adiante, procurando preservar a união, o respeito e a harmonia.</p>
<p>Assim, o tríplice abraço pode ser contemplado como uma pequena caminhada espiritual: <strong>reconciliar, perdoar e reconstruir.</strong></p>
<p>Três movimentos que retiram o homem do terreno do conflito e o conduzem novamente ao terreno da fraternidade.</p>
<h3>A força simbólica do número três</h3>
<p>O número três possui expressiva presença tanto na tradição cristã quanto na simbologia maçônica. No Cristianismo, a referência à Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo — constitui um dos elementos fundamentais da fé cristã.</p>
<p>Na literatura simbólica maçônica, o ternário também ocupa lugar de destaque. José Castellani, em seus estudos sobre a simbologia maçônica, trata o número três como um número de especial importância simbólica.</p>
<p>Por isso, o tríplice abraço pode inspirar uma reflexão particularmente rica.</p>
<p><strong>Primeiro abraço: reconciliar.</strong></p>
<p><strong>Segundo abraço: perdoar.</strong></p>
<p><strong>Terceiro abraço: renovar a fraternidade.</strong></p>
<p>Essa interpretação não pretende estabelecer uma regra ritual, mas oferecer uma leitura moral e simbólica do gesto.</p>
<h3>A fraternidade acima das diferenças</h3>
<p>A verdadeira fraternidade não significa ausência de divergências.</p>
<p>Irmãos podem discordar. Podem interpretar de maneira diferente uma situação. Podem defender posições opostas. Podem até magoar-se.</p>
<p>Mas a fraternidade ensina que nenhuma divergência precisa necessariamente transformar-se em inimizade.</p>
<p>O verdadeiro desafio está em saber retornar ao caminho da harmonia.</p>
<p>É nesse momento que o aperto de mãos e o tríplice abraço fraterno assumem sua maior grandeza.</p>
<p>A mão que se estende vence o orgulho.</p>
<p>O abraço que aproxima vence a distância.</p>
<p>E o tríplice abraço reafirma que a fraternidade pode sobreviver às diferenças.</p>
<h3>Um gesto que fala ao coração</h3>
<p>Há abraços que são apenas manifestações de afeto.</p>
<p>Mas há outros que carregam uma história.</p>
<p>São aqueles em que duas pessoas, depois de enfrentarem divergências, silenciam o orgulho, vencem o ressentimento e decidem dar uma nova oportunidade à fraternidade.</p>
<p>Quando dois irmãos se abraçam fraternalmente, a mensagem silenciosa pode ser:</p>
<p><strong>“Eu o reconheço como irmão.”</strong></p>
<p><strong>“Nossa divergência não é maior do que nossa fraternidade.”</strong></p>
<p><strong>“Seguimos juntos, com respeito e espírito de união.”</strong></p>
<p>Para o cristão, a reconciliação lembra o ensinamento de Cristo sobre o amor, o perdão e a paz.</p>
<p>Para o maçom, a fraternidade recorda que todos são chamados ao aperfeiçoamento moral e à construção de uma sociedade mais justa e harmoniosa.</p>
<p>Para qualquer ser humano, permanece uma lição universal:</p>
<p><strong>Nenhuma relação verdadeiramente importante deveria ser destruída pelo orgulho quando ainda existe espaço para o perdão.</strong></p>
<h3>Conclusão</h3>
<p>Que nossas mãos estejam sempre prontas para ajudar, que nossos braços estejam sempre abertos para acolher e que nossos corações estejam sempre preparados para perdoar.</p>
<p>Porque, às vezes, a reconciliação começa com um aperto de mãos.</p>
<p>Mas, entre irmãos, ela pode encontrar sua expressão mais profunda naquele gesto silencioso e eloquente do <strong>tríplice abraço fraterno</strong>.</p>
<p>Três abraços podem simbolizar três decisões interiores:</p>
<p><strong>reconciliar, perdoar e continuar irmãos.</strong></p>
<p>E talvez esteja justamente aí a maior beleza desse gesto: depois que as mãos se unem, os braços se fecham em torno do irmão, e aquilo que estava dividido encontra novamente o caminho da fraternidade.</p>
<p><strong>Três abraços. Um só sentimento: FRATERNIDADE.</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong> ____________________</strong></p>
<p><strong>Bibliografia </strong></p>
<p><strong>BÍBLIA SAGRADA.</strong> João 13:34-35 — o novo mandamento do amor e o amor como sinal distintivo dos discípulos de Cristo. A passagem sustenta a dimensão cristã da fraternidade e da reconciliação.</p>
<p><strong>BÍBLIA SAGRADA.</strong> Mateus 5:9 — “Bem-aventurados os pacificadores&#8230;”. Fundamenta a valorização cristã da paz e da conciliação.</p>
<p><strong>BÍBLIA SAGRADA.</strong> Mateus 5:23-24 — ensinamento de Jesus sobre a necessidade de reconciliação com o irmão.</p>
<p><strong>BÍBLIA SAGRADA.</strong> Colossenses 3:12-14 — exortação à compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência, perdão e amor.</p>
<p><strong>CASTELLANI, José.</strong> <em>A Maçonaria Moderna</em>. São Paulo: A Gazeta Maçônica, 1987.</p>
<p><strong>CASTELLANI, José.</strong> <em>Liturgia e Ritualística do Grau de Aprendiz Maçom</em>. São Paulo: A Gazeta Maçônica.</p>
<p><strong>CASTELLANI, José.</strong> <em>O Rito Escocês Antigo e Aceito: História, Doutrina e Prática</em>. Londrina: A Trolha, 1988.</p>
<p><strong>CASTELLANI, José.</strong> <em>As Origens Históricas da Mística Maçônica</em>.</p>
<p><strong>BOUCHER, Jules.</strong> <em>A Simbólica Maçônica</em>. São Paulo: Pensamento.</p>
<p><strong>LEPAGE, Marius.</strong> <em>História e Doutrina da Franco-Maçonaria</em>. São Paulo: Pensamento.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<item>
		<title>Maçonaria e Religião: entre a divergência histórica e a construção do diálogo</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/maconaria-e-religiao-entre-a-divergencia-historica-e-a-construcao-do-dialogo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Manuel Luiz Figueiroa]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Sep 2026 09:00:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
		<category><![CDATA[evangélica]]></category>
		<category><![CDATA[Igreja Católica]]></category>
		<category><![CDATA[Islã]]></category>
		<category><![CDATA[Maçonaria]]></category>
		<category><![CDATA[ortodoxa]]></category>
		<category><![CDATA[religião]]></category>
		<category><![CDATA[testemunha de Jeová]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Manuel Luiz Figueiroa (*) &#160; A relação entre a Maçonaria e determinadas tradições religiosas, Igreja Católica Romana e as Igrejas Ortodoxas — as da Grécia, Rússia e Sérvia — é marcada por diferentes posicionamentos. Essas igrejas emitiram declarações considerando incompatível a participação de seus membros na Maçonaria. Igrejas evangélicas — Não existe uma &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Manuel Luiz Figueiroa (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>A relação entre a Maçonaria e determinadas tradições religiosas, Igreja Católica Romana e as Igrejas Ortodoxas — as da Grécia, Rússia e Sérvia — é marcada por diferentes posicionamentos. Essas igrejas emitiram declarações considerando incompatível a participação de seus membros na Maçonaria.</p>
<p><strong>Igrejas evangélicas</strong> — Não existe uma posição única entre os evangélicos. Igrejas de tradição reformada, batista, pentecostal e neopentecostal frequentemente condenam ou desaconselham a filiação na Maçonaria, alegando preocupações com juramentos, simbolismo e aspectos religiosos presentes nos rituais. Outras denominações deixam a decisão à consciência do fiel.</p>
<ol>
<li><strong>Testemunhas de Jeová</strong></li>
</ol>
<p>Desaconselham fortemente a participação em organizações como a Maçonaria, entendendo que a lealdade do cristão deve ser exclusivamente a Deus.</p>
<ol>
<li><strong>Alguns grupos islâmicos</strong></li>
</ol>
<p>Em diversos países de maioria muçulmana, autoridades religiosas emitiram pareceres (fatwas) contra a Maçonaria, embora isso não represente uma posição única de todo o Islã.</p>
<p><strong>Religiões que geralmente não possuem condenação oficial</strong></p>
<p>— Espiritismo.</p>
<p>— Judaísmo (não há uma posição universal; varia conforme a corrente e o rabino).</p>
<p>— Hinduísmo.</p>
<p>— Budismo.</p>
<p>— Religiões afro-brasileiras, como Candomblé e Umbanda.</p>
<p>Nessas tradições, normalmente não existe uma proibição institucional à participação na Maçonaria. Já com Igreja a Católica Romana, tem-se um dos mais duradouros debates da história moderna. Ao longo de quase três séculos, documentos oficiais, posicionamentos doutrinários e acontecimentos políticos contribuíram para consolidar um ambiente de desconfiança recíproca. Apesar disso, o mundo contemporâneo, marcado pelo pluralismo e pela liberdade religiosa, oferece novas oportunidades para que essas instituições encontrem espaços de convivência respeitosa.</p>
<h3><strong>A oposição histórica</strong></h3>
<p>Entre as religiões existentes, a Igreja Católica Romana é a que mantém, de forma mais contínua e oficial, uma posição de incompatibilidade em relação à Maçonaria.</p>
<p>As razões dessa oposição podem ser sintetizadas em cinco aspectos principais:</p>
<p>— a compreensão de que alguns princípios filosóficos da Maçonaria são incompatíveis com a doutrina católica;</p>
<p>— a preocupação com o relativismo religioso, decorrente da convivência de pessoas de diferentes crenças sob uma mesma fraternidade;</p>
<p>— a existência de juramentos iniciáticos e do caráter reservado de determinados rituais;</p>
<p>— conflitos históricos entre setores maçônicos e instituições eclesiásticas, especialmente nos séculos XVIII e XIX;</p>
<p>— diferentes concepções acerca da autoridade moral, da verdade religiosa e da relação entre razão e fé.</p>
<p>Esses fatores explicam por que a Igreja mantém, até hoje, sua posição doutrinária, independentemente da realidade vivida pelas diversas obediências maçônicas em diferentes países.</p>
<h3>A compreensão da Maçonaria</h3>
<p>Por sua vez, a Maçonaria afirma não ser uma religião nem pretende substituí-la. Define-se como uma instituição iniciática, filosófica, fraternal e filantrópica, dedicada ao aperfeiçoamento moral do ser humano.</p>
<p>Seus princípios tradicionais valorizam:</p>
<p>— a liberdade de consciência;</p>
<p>— a tolerância religiosa;</p>
<p>— a fraternidade universal;</p>
<p>— o respeito às leis;</p>
<p>— o aperfeiçoamento moral e intelectual;</p>
<p>— a prática da beneficência.</p>
<p>Em muitas obediências maçônicas convivem pessoas pertencentes às mais diversas tradições religiosas, sem que lhes seja exigido abandonar sua fé.</p>
<h3>O fortalecimento institucional como resposta</h3>
<p>Surge, então, uma questão relevante: seria desejável que a Maçonaria ampliasse seu poder institucional como forma de enfrentar a oposição das religiões?</p>
<p>A resposta exige prudência.</p>
<p>Caso o fortalecimento institucional tenha como finalidade ampliar ações beneficentes, educativas, culturais e científicas, contribuir para o desenvolvimento ético da sociedade e tornar mais transparente sua atuação, esse crescimento pode representar um benefício para toda a comunidade.</p>
<p>Entretanto, se o fortalecimento for concebido como instrumento de enfrentamento ou de dissuasão contra instituições religiosas, corre-se o risco de alimentar uma lógica de confronto incompatível tanto com os ideais maçônicos quanto com os princípios democráticos de convivência entre diferentes convicções.</p>
<p>O verdadeiro prestígio de qualquer instituição nasce muito mais da credibilidade de suas ações do que da expansão de sua influência.</p>
<h3>A liberdade religiosa como patrimônio comum</h3>
<p>As democracias contemporâneas reconhecem que nenhuma instituição possui o monopólio absoluto da vida pública.</p>
<p>Religiões, associações filosóficas e organizações civis exercem papéis distintos e complementares.</p>
<p>A liberdade de religião inclui tanto o direito de professar uma fé quanto o direito de participar de associações filosóficas legítimas. Da mesma forma, uma instituição religiosa possui o direito de definir, segundo sua própria doutrina, quais práticas considera compatíveis com sua fé.</p>
<p>O desafio consiste em preservar esses direitos sem transformar divergências doutrinárias em hostilidade permanente.</p>
<h3>Construindo pontes de entendimento</h3>
<p>Embora as diferenças teológicas permaneçam, existem inúmeros valores compartilhados que podem servir de base para um diálogo respeitoso.</p>
<p>Entre eles destacam-se:</p>
<p>— a dignidade da pessoa humana;</p>
<p>— a promoção da justiça;</p>
<p>— a solidariedade;</p>
<p>— a defesa da liberdade;</p>
<p>— o combate à pobreza;</p>
<p>— a educação;</p>
<p>— a promoção da paz;</p>
<p>— o respeito às leis e às instituições democráticas.</p>
<h3>A construção dessas pontes pode ocorrer mediante diversas iniciativas:</h3>
<ol>
<li>Reconhecimento da autonomia institucional</li>
</ol>
<p>Cada instituição deve ser respeitada em sua identidade, sem pretensão de converter ou deslegitimar a outra.</p>
<ol start="2">
<li>Diálogo permanente</li>
</ol>
<p>O conhecimento reduz preconceitos. Conversas acadêmicas, históricas e culturais ajudam a substituir mitos por informações verificáveis.</p>
<ol start="3">
<li>Cooperação em causas comuns</li>
</ol>
<p>Projetos sociais, ações beneficentes, campanhas de saúde, educação e assistência humanitária podem unir pessoas de diferentes convicções em torno do bem comum.</p>
<ol start="4">
<li>Transparência</li>
</ol>
<p>Quanto maior a clareza sobre objetivos, princípios e formas de atuação, menores tendem a ser os espaços para suspeitas infundadas.</p>
<ol start="5">
<li>Cultura da tolerância</li>
</ol>
<p>A verdadeira tolerância não exige concordância. Exige apenas o reconhecimento da dignidade do outro e de seu direito de pensar de forma diferente.</p>
<h3>Conclusão</h3>
<p>A história demonstra que antagonismos prolongados raramente produzem vencedores duradouros. Em contrapartida, o diálogo respeitoso fortalece a convivência e amplia as possibilidades de cooperação.</p>
<p>A Igreja Católica permanecerá fiel à sua doutrina, assim como a Maçonaria continuará afirmando sua identidade filosófica e iniciática. Essas diferenças dificilmente desaparecerão, mas não precisam impedir uma convivência civilizada.</p>
<p>No século XXI, o verdadeiro desafio não consiste em saber qual instituição exercerá maior influência, mas em descobrir como diferentes tradições podem colaborar para a construção de uma sociedade mais justa, livre, ética e solidária.</p>
<p>Talvez a ponte mais sólida entre essas correntes de pensamento seja o reconhecimento de que nenhuma organização, isoladamente, esgota a busca pela verdade nem o compromisso com o bem comum. Quando a firmeza das convicções se alia ao respeito pela liberdade de consciência, a divergência deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma oportunidade de crescimento mútuo. Nesse horizonte, Maçonaria e religiões podem permanecer fiéis às suas identidades, sem renunciar ao diálogo, à cooperação e à promoção da dignidade humana.</p>
<p>OBS. A dicotomia <strong>Maçonaria e Religião: Entre a Divergência Histórica e a Construção do Diálogo, </strong>pode e deve ser refletida em outros contextos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>____________________</p>
<p><strong>Bibliografia:</strong></p>
<p>CLEMENTE XII. <em>In eminenti apostolatus specula</em>. Roma, 28 abr. 1738.</p>
<p>PIO VII. <em>Ecclesiam a Jesu Christo</em>. Roma, 13 set. 1821.</p>
<p>LEÃO XII. <em>Quo graviora</em>. Roma, 13 mar. 1825.</p>
<p>PIO VIII. <em>Traditi Humilitati</em>. Roma, 24 maio 1829.</p>
<p>PIO IX. <em>Quanta Cura</em>. Roma, 8 dez. 1864.</p>
<p>PIKE, Albert. <em>Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry</em>. Charleston: Supreme Council, 1871.</p>
<p>LEÃO XIII. <em>Humanum Genus: Encíclica sobre a Maçonaria</em>. Roma, 20 abr. 1884.</p>
<p>CONCÍLIO VATICANO II. <em>Dignitatis Humanae: Declaração sobre a Liberdade Religiosa</em>. Cidade do Vaticano, 1965.</p>
<p>BENTO XVI. <em>Código de Direito Canônico</em>. São Paulo: Loyola, 1983.</p>
<p>CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. <em>Declaração sobre as Associações Maçônicas (Quaesitum est)</em>. Cidade do Vaticano, 26 nov. 1983.</p>
<p>JACOB, Margaret C. <em>Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe</em>. Oxford: Oxford University Press, 1991.</p>
<p>MACKEY, Albert Gallatin. <em>Enciclopédia da Maçonaria</em>. São Paulo: Madras.</p>
<p>PRESTON, William. <em>Illustrations of Masonry</em>. London: diversas edições.</p>
<p>MACNULTY, W. Kirk. <em>Freemasonry: Symbols, Secrets, Significance</em>. Londres: Thames &amp; Hudson, 2006.</p>
<p>LOCKE, John. <em>Carta acerca da Tolerância</em>. São Paulo: Martins Fontes.</p>
<p>VOLTAIRE. <em>Tratado sobre a Tolerância</em>. São Paulo: Martins Fontes.</p>
<p>KANT, Immanuel. <em>A Religião nos Limites da Simples Razão</em>. Lisboa: Edições 70.</p>
<p>ELIADE, Mircea. <em>História das Crenças e das Ideias Religiosas</em>. Rio de Janeiro: Zahar.</p>
<p>ARMSTRONG, Karen. <em>Uma História de Deus</em>. São Paulo: Companhia das Letras.</p>
<p>&nbsp;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Aprendiz de poeta</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/aprendiz-de-poeta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leo Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Aug 2026 09:00:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
		<category><![CDATA[Canadá]]></category>
		<category><![CDATA[energia]]></category>
		<category><![CDATA[eventos]]></category>
		<category><![CDATA[Grande Loja]]></category>
		<category><![CDATA[Grande Oriente]]></category>
		<category><![CDATA[leitura]]></category>
		<category><![CDATA[Maçonaria]]></category>
		<category><![CDATA[poems]]></category>
		<category><![CDATA[Sergipe]]></category>
		<category><![CDATA[sinergia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Em versos simples e cheios de vivacidade, o poema Aprendiz de Poeta, de autoria de Léo Andrade, conduz o leitor por uma jornada de reflexão, fraternidade e aprendizado contínuo dentro do universo maçônico. Com um olhar sensível e integrado à realidade de Sergipe — e que se expande para o mundo —, a obra &#8230;</p>
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<blockquote>
<h4><span style="color: #008000;">Em versos simples e cheios de vivacidade, o poema <b data-path-to-node="0" data-index-in-node="50">Aprendiz de Poeta</b>, de autoria de Léo Andrade, conduz o leitor por uma jornada de reflexão, fraternidade e aprendizado contínuo dentro do universo maçônico. Com um olhar sensível e integrado à realidade de Sergipe — e que se expande para o mundo —, a obra celebra os valores da lealdade, da filantropia e do aperfeiçoamento humano. É um convite poético a compreender que a verdadeira sabedoria reside no ato constante de aprender, servir e cultivar a amizade sincera</span></h4>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">Por Léo Andrade (*)</span></p></blockquote>
<div class="box shadow  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> I</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Ser maçom com energia</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Traz conhecimentos</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Com muita alegria</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">A cada dia novos eventos</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">II</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">A maçonaria tem história </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Com congraçamento</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Alegorias e sinergia </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">E também filosofia </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">III</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">É legal a irmandade</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Sempre a lealdade</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Preservando a verdade </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Junto a comunidade</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">IV</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Ajudar a humanidade </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Sempre com coração </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Disponibilidade e gratidão </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Filantropia com emoção </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> </span><span style="font-weight: 400;">V</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Com pensamento positivo </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Fazer leitura de ambiente </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Maçom com atitude </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Deixar todos contentes </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">VI</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">A maçonaria é universal </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Com história local </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Também têm nacional </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Reconhecimento mundial </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">VII</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">A felicidade perpassa  </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Com muito fervor  </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">A cada ano que passo  </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Na maçonaria com louvor </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">VIII</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Comecei como aprendiz </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Nas lojas observei </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Olhando mais experientes </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Cada dia mais contente </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">IX</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Companheiro continuei </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Aprendendo com mestres   </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Orientação do superior </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Fortalecendo meu interior </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> </span><span style="font-weight: 400;">X</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Estou sempre atento  </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Ajudar os aprendizes </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Companheiros orientar  </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Mestres estudar </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">XI</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Sou da Grande Loja </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Do oriente de Aracaju </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Sempre visito contente </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Os irmãos do Grande Oriente </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">XII</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Visitar é muito importante</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Experiência e amizade </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Interações é bom saber </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Visitar loja é aprender </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">XIII</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Vou às lojas de Aracaju </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Itabaiana vou visitar</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Em Neópolis vou estar </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">No Canadá vou prestigiar </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">XIV</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Outros ritos conhecer </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Estudar e vivenciar </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">A maçonaria universal </span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Cada dia mais sensacional</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">XV</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Maçom, sempre a começar</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Com amor aperfeiçoar</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Estar sempre a tolerar</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">Feliz a humanizar</span></p>
<p>&nbsp;</p>

			</div></div>
<p>&nbsp;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Do filósofo ao sábio: Quando a virtude se torna natureza</title>
		<link>https://www.sosergipe.com.br/do-filosofo-ao-sabio-quando-a-virtude-se-torna-natureza/</link>
					<comments>https://www.sosergipe.com.br/do-filosofo-ao-sabio-quando-a-virtude-se-torna-natureza/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alex Santana]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2026 08:30:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
		<category><![CDATA[aperfeiçomento]]></category>
		<category><![CDATA[bruta]]></category>
		<category><![CDATA[consciência]]></category>
		<category><![CDATA[filósofo]]></category>
		<category><![CDATA[ignorância]]></category>
		<category><![CDATA[Maçonaria]]></category>
		<category><![CDATA[ordem]]></category>
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		<category><![CDATA[reflexão]]></category>
		<category><![CDATA[sábio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Alex Santana (*) &#160; O filósofo Clóvis de Barros Filho, em uma de suas entrevistas, faz uma reflexão que, à primeira vista, parece simples, mas revela uma profunda verdade sobre a condição humana: “Sabemos quase nada sobre quase tudo.” A partir dessa afirmação, ele nos convida a reconhecer que existem inúmeros assuntos sobre &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Alex Santana (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p class="isSelectedEnd"><span class="dropcap ">O</span> filósofo <strong>Clóvis de Barros Filho</strong>, em uma de suas entrevistas, faz uma reflexão que, à primeira vista, parece simples, mas revela uma profunda verdade sobre a condição humana:</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>“Sabemos quase nada sobre quase tudo.”</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">A partir dessa afirmação, ele nos convida a reconhecer que existem inúmeros assuntos sobre os quais nosso conhecimento é extremamente limitado.</p>
<p class="isSelectedEnd">Com exemplos do cotidiano, demonstra que, apesar dos avanços da humanidade, nossa compreensão da realidade ainda é pequena diante da imensidão do que existe para conhecer.</p>
<p class="isSelectedEnd">Essa constatação nos conduz a outra importante reflexão:</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Ninguém deseja aquilo que acredita já possuir.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Assim, quem almeja a sabedoria precisa, antes de tudo, reconhecer que ainda não a alcançou. Afinal, somente busca o conhecimento aquele que tem consciência da própria ignorância. Na Maçonaria, essa verdade é profundamente simbólica. Ao ingressarmos na Ordem, somos convidados a reconhecer que somos uma <strong>Pedra Bruta</strong>, necessitada de contínuo aperfeiçoamento.</p>
<p class="isSelectedEnd">Cada sessão, cada instrução e cada reflexão representam mais um golpe do malho e do cinzel em direção ao nosso aprimoramento moral e espiritual. Mas surge uma pergunta inevitável:</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Como se comporta um homem verdadeiramente sábio?</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Será que a sabedoria consiste apenas em acumular conhecimentos?</p>
<p class="isSelectedEnd">Ou ela se revela, sobretudo, na forma como agimos diante das situações mais simples da vida?</p>
<p class="isSelectedEnd">Para responder a essa pergunta, permitam-me compartilhar um antigo conto oriental, difundido pela professora <strong>Lúcia Helena Galvão</strong>, que ilustra, de maneira extraordinária, a diferença entre conhecer o bem e tornar-se, verdadeiramente, um homem bom.</p>
<div class="box shadow  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<h3>O Sábio e o Porco</h3>
<p class="isSelectedEnd">Certo dia, um filósofo, chamado de mestre, prometeu a dois de seus jovens aprendizes que os levaria ao ponto mais alto de uma montanha para conhecerem um sábio que por lá vivia.</p>
<p class="isSelectedEnd">Mas, para que isso pudesse acontecer, os dois teriam que se esforçar em suas atividades para conquistar aquele tão apreciado prêmio.</p>
<p class="isSelectedEnd">Era preciso mérito para uma vivência tão grandiosa.</p>
<p class="isSelectedEnd">Pois eles assim o fizeram por muitos dias seguidos, aprimorando seus conhecimentos e destacando-se nas atividades que lhes foram propostas, a tal ponto de conseguirem alcançar a recompensa.</p>
<p class="isSelectedEnd">Chegado o momento, o filósofo marcou um encontro com os dois aprendizes bem cedo, ao nascer do dia, para que, juntos, subissem aquela montanha em busca do tão esperado encontro com o sábio.</p>
<p class="isSelectedEnd">E, para não perderem nada, os dois aprendizes se adiantaram no horário, fazendo questão de chegar ao amanhecer ao ponto de encontro.</p>
<p class="isSelectedEnd">Enquanto esperavam, viam o movimento de pessoas que caminhavam para uma feira local.</p>
<p class="isSelectedEnd">Muita gente, carregada de coisas e animais.</p>
<p class="isSelectedEnd">Um jovem pastor conduzia vários porcos para serem comercializados. Entre eles havia um porco gigante, que caminhava com muita dificuldade, devido ao peso e a alguma ferida incômoda em uma das patas.</p>
<p class="isSelectedEnd">Isso fazia com que o comerciante se atrasasse e, por isso, estava extremamente irritado, dando uma surra no animal.</p>
<p class="isSelectedEnd">Vendo tudo aquilo, um ancião resolveu chegar perto do pastor e pedir sua autorização para que pudesse carregar o porco.</p>
<p class="isSelectedEnd">Assustado, o jovem permitiu, não acreditando que aquilo seria de fato realizado.</p>
<p class="isSelectedEnd">Como o jovem não se opôs, o ancião carregou o porco, com muita dificuldade, lambuzando-se com a sujeira do animal.</p>
<p class="isSelectedEnd">Os dois aprendizes viam aquilo perplexos.</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Pois qual era a necessidade de fazer aquilo?</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Deixassem o animal sofrer. Afinal, era só um porco.</p>
<p class="isSelectedEnd">Naquilo, no fim do trajeto, não havia nenhum tipo de gratidão a olho nu.</p>
<p class="isSelectedEnd">O porco não agradeceria, pois não é da natureza dos porcos agradecer.</p>
<p class="isSelectedEnd">O jovem pastor e comerciante também não viu sentido naquilo e, por isso, fez-se de desentendido.</p>
<p class="isSelectedEnd">Quando o filósofo chegou até os dois, o grupo foi subindo a montanha e comentando aquele estranho caso do ancião e do porco.</p>
<p class="isSelectedEnd">O filósofo, convicto, deu-lhes uma explicação:</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>O ancião fez isso por ele mesmo.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Como a sua consciência indicava que aquilo seria o justo, se ele não o fizesse, todos os dias, quando se lembrasse daquele fato, lhe doeria.</p>
<p class="isSelectedEnd">Viria à sua mente que ele deveria ter feito o justo e não o fez.</p>
<p class="isSelectedEnd">Já no alto da montanha, numa casa simples, morava o tão respeitado sábio.</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Quanta honra poder conhecer um sábio!</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Ao baterem à porta, foram logo recebidos pelo mesmo ancião que haviam visto na feira.</p>
<p class="isSelectedEnd">Os jovens ficaram assustados com a coincidência, mas não falaram nada.</p>
<p class="isSelectedEnd">Passaram um dia de aprendizado ali.</p>
<p class="isSelectedEnd">Ao irem embora, já no fim da tarde, o sábio perguntou se poderia contribuir com eles em mais alguma coisa.</p>
<p class="isSelectedEnd">Eles ficaram relutantes, mas resolveram perguntar por que aquele ancião havia feito, na manhã daquele mesmo dia, todo aquele esforço para carregar um porco manco que era conduzido por seu pastor até a feira.</p>
<p class="isSelectedEnd">O sábio, com olhar sereno, disse:</p>
<p><strong>“Hoje de manhã? Porco? Que porco? Não estou lembrando de porco algum. Peço desculpas, mas não me recordo do que vocês estão relatando.”</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Os discípulos então agradeceram, despediram-se e desceram a montanha sem entender nada.</p>
<p class="isSelectedEnd">Foi quando o seu mestre, o filósofo, soltou uma risada para si mesmo.</p>
<p class="isSelectedEnd">Os discípulos perguntaram do que ele ria.</p>
<p class="isSelectedEnd">O mestre respondeu que havia atentado para um fato.</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Aquele homem, diferente dele, era um sábio.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">E continuou:</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>“Eu carregaria o porco por disciplina, mesmo estando em guerra interna, reclamando do porco e da má sorte de tê-lo encontrado.”</strong></p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>“Mas o sábio, não.”</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Ele carregou o porco com tanta naturalidade como quem respira, sem que a mente precisasse registrar aquilo como algo diferente da rotina do corpo.</p>

			</div></div>
<p class="isSelectedEnd"><strong>À primeira vista, pensamos que a história fala sobre um porco.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Mas ela nunca foi sobre um porco.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Ela fala sobre nós.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Quantas vezes fazemos o bem esperando reconhecimento?</p>
<p class="isSelectedEnd">Quantas vezes ajudamos alguém e ficamos decepcionados porque ninguém agradeceu?</p>
<p class="isSelectedEnd">Quantas vezes cumprimos nosso dever apenas porque entendemos que era nossa obrigação?</p>
<p class="isSelectedEnd">Existe uma enorme diferença entre fazer o bem por obrigação e fazer o bem porque nos tornamos pessoas boas.</p>
<p class="isSelectedEnd">É exatamente essa diferença que o filósofo apresenta aos seus discípulos.</p>
<p class="isSelectedEnd">Ele reconhece:</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>“Eu carregaria o porco por disciplina.”</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Que bela demonstração de humildade.</p>
<p class="isSelectedEnd">Ele não se coloca no mesmo nível do sábio.</p>
<p class="isSelectedEnd">Ele compreende que ainda existe um conflito dentro de si.</p>
<p class="isSelectedEnd">Uma parte de sua consciência sabe o que deve fazer.</p>
<p class="isSelectedEnd">Outra parte reclama.</p>
<p class="isSelectedEnd">Questiona.</p>
<p class="isSelectedEnd">Resiste.</p>
<p class="isSelectedEnd">E não é assim conosco?</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Quando alguém nos ofende&#8230;</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Nossa razão diz:</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>“Perdoe.”</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Mas nosso orgulho responde:</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>“Não.”</strong></p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Quando somos chamados a servir&#8230;</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Nossa consciência diz:</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>“Ajude.”</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Mas nossa comodidade responde:</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>“Depois.”</strong></p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Quando devemos agir com paciência&#8230;</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Nossa educação pede calma.</p>
<p class="isSelectedEnd">Mas nossas paixões querem reagir imediatamente.</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>É exatamente esse conflito que caracteriza o homem em construção.</strong></p>
<h2>A visão maçônica</h2>
<p class="isSelectedEnd">Na Maçonaria, chamamos isso de <strong>desbastar a Pedra Bruta</strong>.</p>
<p class="isSelectedEnd">Não se trata apenas de aprender símbolos.</p>
<p class="isSelectedEnd">Nem de decorar rituais.</p>
<p class="isSelectedEnd">Muito menos de acumular conhecimento.</p>
<p class="isSelectedEnd">O verdadeiro trabalho acontece dentro de nós.</p>
<p class="isSelectedEnd">Toda sessão é um convite para lapidar nosso caráter.</p>
<p class="isSelectedEnd">Cada ensinamento recebido é mais um golpe de malho.</p>
<p class="isSelectedEnd">Cada reflexão é mais um uso do cinzel.</p>
<p class="isSelectedEnd">E, pouco a pouco, aquilo que antes exigia esforço&#8230;</p>
<p class="isSelectedEnd">começa a acontecer naturalmente.</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>No início, somos honestos</strong> porque aprendemos que devemos ser.</p>
<p class="isSelectedEnd">Depois&#8230;</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>nos tornamos honestos.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Primeiro somos pacientes por disciplina.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Depois&#8230;</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>nos tornamos pacientes por natureza.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Primeiro perdoamos porque sabemos que é o correto.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Depois&#8230;</p>
<p class="isSelectedEnd">perdoar deixa de ser esforço e passa a ser parte de quem somos.</p>
<h2>O verdadeiro objetivo da iniciação</h2>
<p class="isSelectedEnd">Talvez aqui esteja um dos maiores equívocos que podemos cometer:</p>
<p class="isSelectedEnd">pensar que a Maçonaria existe para ensinar virtudes.</p>
<p class="isSelectedEnd">Não.</p>
<p class="isSelectedEnd">Virtudes podem ser aprendidas em muitos lugares.</p>
<p class="isSelectedEnd">A Maçonaria pretende algo muito maior.</p>
<p class="isSelectedEnd">Ela deseja <strong>transformar a virtude em caráter.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Porque caráter não é aquilo que fazemos de vez em quando.</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Caráter é aquilo que fazemos sem precisar pensar.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>É quando o bem deixa de ser uma escolha difícil&#8230;</strong></p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>e passa a ser nossa própria natureza.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Foi exatamente isso que os discípulos perceberam no final da história.</p>
<p class="isSelectedEnd">O sábio nem sequer lembrava do porco.</p>
<p class="isSelectedEnd">Porque, para ele, aquilo não tinha sido um grande feito.</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Foi apenas um ato natural.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Assim como respirar.</p>
<p class="isSelectedEnd">Assim como caminhar.</p>
<p class="isSelectedEnd">Assim como estender a mão.</p>
<h2>Aqui, uma reflexão para todos nós</h2>
<p class="isSelectedEnd">E eu lhes faço uma pergunta.</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Quantos porcos ainda carregamos reclamando?</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Quantas vezes fazemos o bem esperando reconhecimento?</p>
<p class="isSelectedEnd">Quantas vezes cumprimos nosso dever alimentando internamente o ressentimento?</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Talvez ainda sejamos filósofos ou aprendizes.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">E isso não é um problema.</p>
<p class="isSelectedEnd">Porque todo sábio, um dia, também foi um filósofo.</p>
<p class="isSelectedEnd">O problema seria acreditar que já chegamos ao destino.</p>
<h2>Conclusão</h2>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Meus Amados Irmãos,</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Nossa caminhada maçônica não termina quando recebemos um novo grau.</p>
<p class="isSelectedEnd">Ela não termina quando ocupamos um cargo.</p>
<p class="isSelectedEnd">Ela não termina quando aprendemos novos símbolos.</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Ela só termina quando aquilo que hoje exige disciplina&#8230;</strong></p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>amanhã se transformar em natureza.</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">Quando a honestidade deixar de ser um esforço.</p>
<p class="isSelectedEnd">Quando a fraternidade deixar de ser um dever.</p>
<p class="isSelectedEnd">Quando a tolerância deixar de ser uma obrigação.</p>
<p class="isSelectedEnd">Quando servir deixar de ser um sacrifício.</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>Nesse dia&#8230;</strong></p>
<p class="isSelectedEnd">talvez nem nos lembremos mais dos “porcos” que carregamos.</p>
<p class="isSelectedEnd">Porque teremos aprendido a fazer o bem sem esperar aplausos&#8230;</p>
<p class="isSelectedEnd">a servir sem desejar reconhecimento&#8230;</p>
<p class="isSelectedEnd">e a agir corretamente não por imposição, mas porque essa será a nossa essência.</p>
<p class="isSelectedEnd">E talvez possamos dizer que o verdadeiro objetivo da Iniciação não é formar homens que conheçam o bem.</p>
<p class="isSelectedEnd"><strong>É formar homens para os quais o bem se tornou tão natural quanto respirar.</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Loja está coberta? Uma homenagem à ARLS Clodomir Silva nº 1477</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Gonçalves]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Aug 2026 09:00:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Jorge Gonçalves (*) M uitos dos procedimentos ritualísticos que praticamos hoje em Loja têm origem em antigas tradições do Ofício, preservadas ao longo dos séculos, mesmo quando as razões que motivaram sua adoção já não são plenamente compreendidas[1]. Isso fica evidente logo na abertura de nossos trabalhos. O primeiro dever de determinado oficial é &#8230;</p>
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<p dir="auto" tabindex="-1">
<blockquote>
<p dir="auto" tabindex="-1">Por Jorge Gonçalves (*)</p>
</blockquote>
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<div id="viewer-iqyzk62" class="n58GL wgYGg _3ea47 EsZzH" dir="auto" tabindex="-1">
<span class="dropcap ">M</span> uitos dos procedimentos ritualísticos que praticamos hoje em Loja têm origem em antigas tradições do Ofício, preservadas ao longo dos séculos, mesmo quando as razões que motivaram sua adoção já não são plenamente compreendidas<span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftn1">[1]</a></span>. Isso fica evidente logo na abertura de nossos trabalhos. O primeiro dever de determinado oficial é garantir que o Templo esteja devidamente protegido (“coberto”) e, em seguida, assegurar-se de que todos os presentes são maçons<span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftn2">[2]</a></span>. Embora, em nossas reuniões habituais, todos se conheçam, essa exigência possui uma profunda raiz histórica.</p>
<p>Para compreendê-la, devemos voltar à Escócia do final do século XVI, mais especificamente aos Estatutos de William Schaw, de 1598. Esse documento, essencial para a organização do Ofício, estabelecia rigorosas proibições contra os chamados <em>cowans</em>. Não há pretensão de traduzir esse antigo termo para o português, preservando integralmente seu significado histórico. Naquele período operativo, o <em>cowan</em> era o trabalhador que exercia, ou pretendia exercer, o ofício de pedreiro sem ter passado pelo aprendizado regular ou sem pertencer à corporação do ofício. Em termos modernos, poderíamos compará-lo a alguém que tenta exercer uma profissão regulamentada, como a Medicina, sem diploma ou sem a devida habilitação legal. Os <em>Estatutos de Schaw</em> puniam não apenas os <em>cowans</em>, mas também os pedreiros que lhes oferecessem trabalho ou permitissem que seus aprendizes trabalhassem ao seu lado<span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftn3">[3]</a></span>.</p>
<figure id="attachment_100566" aria-describedby="caption-attachment-100566" style="width: 323px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Contancio-Vieira.avif"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-100566" src="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Contancio-Vieira-225x300.avif" alt="Contâncio Vieira" width="323" height="430" srcset="https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Contancio-Vieira-225x300.avif 225w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Contancio-Vieira-768x1024.avif 768w, https://www.sosergipe.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Contancio-Vieira.avif 960w" sizes="auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px" /></a><figcaption id="caption-attachment-100566" class="wp-caption-text">Constâncio Vieira, foto restaurada por Jorge Gonçalves</figcaption></figure>
<p>Segundo o pesquisador Kennyo Ismail, o termo goteira consolidou-se, na Maçonaria brasileira, como equivalente de <em>cowan</em><span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftn4">[4]</a></span>. Em 1730, Samuel Prichard, em sua obra <em>Masonry Dissected</em>, escreveu: “Se um cowan (ou um ouvinte clandestino) for apanhado, como deverá ser punido?” E assim respondeu: “Deverá ser colocado sob o beiral de uma casa, em tempo chuvoso, até que a água escorra pelos ombros e saia pelos sapatos<span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftn5">[5]</a></span>.”</p>
<p>Não é por acaso que o oficial responsável por proteger o Templo recebe o nome de Cobridor, tradução do termo inglês <em>Tiler</em> (aquele que assenta telhas). Sua função consistia em “cobrir” a Loja, impedindo a entrada de intrusos ou de ouvintes clandestinos durante os trabalhos<span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftn6">[6]</a></span>.</p>
<p>A documentação histórica revela que o rigor na identificação dos visitantes jamais teve por finalidade afastar Irmãos. Ao contrário, sempre existiu para garantir um dos maiores privilégios da Maçonaria: o direito de intervisitação entre Lojas. Trata-se de um direito imemorial, espontâneo e universalmente reconhecido, razão pela qual, em minha compreensão, constitui um verdadeiro <em>Landmark</em>, um marco tradicional e inalterável da Maçonaria.</p>
<p>Inestimáveis Irmãos, com muita gratidão, jamais esqueceremos a generosidade.</p>
<p>É exatamente esse privilégio que celebramos hoje, ao retribuirmos a honrosa visita da ARLS Clodomir Silva nº 1477 à ARLS Constâncio Vieira nº 3300, por ocasião da palestra do Ir.&#8217;. Cledson Cardoso.</p>
<p>&nbsp;</p>
</div>
<p>____________________</p>
<div id="viewer-iqyzk62" class="n58GL wgYGg _3ea47 EsZzH" dir="auto" tabindex="-1">
<p><strong>Notas de rodapé das Referências Bibliográficas:</strong></p>
<p><a href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftnref1"><span style="color: #008000;">[1]</span></a> CARR, Harry. <strong><em>O Ofício do Maçom: o guia definitivo para o trabalho maçônico</em></strong>. São Paulo: Madras, 2012. p.48.</p>
<p><span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftnref2">[2]</a> </span>ANÔNIMO. <strong><em>Três Batidas Distintas (Three Distinct Knocks)</em></strong>. Londres: T. Hughes, 1760.</p>
<p><span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftnref3">[3]</a></span> ISMAIL, Kennyo. <strong><em>Breviário Maçônico do Século XXI</em></strong>. Brasília: No Esquadro, 2024. p. 148, 368.</p>
<p><span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftnref4">[4]</a></span> ISMAIL, Kennyo.<strong><em> Breviário Maçônico do Século XXI</em></strong>. Brasília: No Esquadro, 2024. p. 148, 368.</p>
<p><span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftnref5">[5]</a></span> PRICHARD, Samuel. <strong><em>Masonry Dissected</em></strong>. Londres: J. Wilford, 1730.</p>
<p><span style="color: #008000;"><a style="color: #008000;" href="https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-loja-esta-coberta#_ftnref6">[6]</a></span> ISMAIL, Kennyo. <strong><em>Breviário Maçônico do Século XXI</em></strong>. Brasília: No Esquadro, 2024. p. 148, 368.</p>
<p>&nbsp;</p>
</div>
</div>
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		<title>Onde está seu irmão? Uma reflexão sobre fraternidade e responsabilidade moral</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Andre Luiz Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Aug 2026 09:00:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
		<category><![CDATA[Abel]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Andre Luiz (*) &#160; A passagem bíblica de Caim e Abel, narrada em Gênesis, capítulo 4, está entre os relatos mais marcantes das Sagradas Escrituras. À primeira vista, parece apenas a história do primeiro homicídio da humanidade. Contudo, quando observada sob uma perspectiva filosófica e iniciática, revela uma profunda lição sobre a natureza &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Andre Luiz (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">A</span> passagem bíblica de Caim e Abel, narrada em Gênesis, capítulo 4, está entre os relatos mais marcantes das Sagradas Escrituras. À primeira vista, parece apenas a história do primeiro homicídio da humanidade. Contudo, quando observada sob uma perspectiva filosófica e iniciática, revela uma profunda lição sobre a natureza humana, a responsabilidade moral e o verdadeiro significado da fraternidade.</p>
<h3>A vaidade, a inveja e o domínio das paixões</h3>
<p>Após oferecerem seus sacrifícios ao Grande Arquiteto do Universo, Abel teve sua oferta aceita, enquanto Caim viu a sua rejeitada. Em vez de examinar a si mesmo, reconhecer suas limitações e buscar o aperfeiçoamento, Caim permitiu que a vaidade ferida, a inveja e o orgulho dominassem seu coração.</p>
<blockquote><p>Antes mesmo do crime, Deus o advertiu:<br />
“Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Mas, se não procederes bem, o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4:7).</p></blockquote>
<p>Essa advertência revela uma das maiores lições da tradição iniciática: o homem é sempre responsável pelo domínio de suas paixões. Não são os acontecimentos externos que determinam seu destino, mas a forma como ele governa seu mundo interior. O verdadeiro combate sempre ocorre dentro de nós, onde a razão deve prevalecer e a virtude precisa vencer o orgulho.</p>
<p>Todavia, Caim ignorou a voz da consciência. Levou seu irmão ao campo e ali o matou.</p>
<h3>“Onde está o teu irmão?”: o chamado à responsabilidade</h3>
<p>Então Deus lhe dirige uma pergunta que atravessa os séculos e continua ecoando na consciência da humanidade: “Onde está o teu irmão?”</p>
<p>À primeira vista, parece uma pergunta simples. Entretanto, Deus não buscava informação, pois conhecia os fatos. A pergunta era um convite ao reconhecimento da responsabilidade moral.</p>
<blockquote><p>A resposta de Caim evidencia o rompimento completo da fraternidade:<br />
“Não sei. Sou eu o guardador do meu irmão?” (Gn 4:9)</p></blockquote>
<p>Essa talvez seja uma das frases mais trágicas já pronunciadas pelo homem. Ela representa a negação da responsabilidade pelo outro, o abandono da solidariedade e o triunfo do egoísmo.</p>
<p>Mas a pergunta divina vai muito além daquele momento da história. Ela não foi dirigida apenas a Caim; continua sendo dirigida a cada homem, em todos os tempos. Ela nos convida a uma reflexão profunda:</p>
<div class="box success  "><div class="box-inner-block"><i class="fa tie-shortcode-boxicon"></i>
			
<p>&#8211; Onde estou eu diante do meu irmão?<br />
&#8211; Tenho sido instrumento de união ou de divisão?<br />
&#8211; Tenho estendido a mão ou permanecido indiferente?<br />
&#8211; Tenho cultivado a humildade ou permitido que a vaidade dite as minhas ações?</p>

			</div></div>
<p>Essas perguntas revelam muito mais sobre o nosso caráter do que qualquer discurso que possamos fazer.</p>
<h3>Fraternidade na Maçonaria: o oposto de Caim</h3>
<p>Na Maçonaria, aprendemos exatamente o contrário da resposta dada por Caim. Desde nossos primeiros passos na Ordem, somos ensinados que nenhum homem se aperfeiçoa sozinho. Somos chamados Irmãos porque reconhecemos que caminhamos juntos na construção do Templo Interior e na edificação de uma sociedade mais justa.</p>
<p>A verdadeira fraternidade não consiste apenas em chamar alguém de Irmão, mas em agir como tal. Ser guardador de nosso irmão significa compartilhar suas alegrias, aliviar suas dificuldades, orientá-lo quando necessário e jamais permitir que o orgulho, a inveja ou a indiferença destruam os laços que unem os obreiros do mesmo templo.</p>
<p>Assim, quando Deus pergunta “Onde está o teu irmão?”, o Maçom também deve perguntar a si mesmo: “Quem sou eu diante do meu irmão?”. Está ele ao nosso lado, precisando de orientação? Está distante, aguardando uma palavra de incentivo? Está sofrendo em silêncio enquanto permanecemos indiferentes? Ou estará, muitas vezes, dentro de nós mesmos, representado pela parte da nossa consciência que abandonamos quando cedemos ao orgulho, à vaidade ou à indiferença?</p>
<h3>Quando o silêncio se torna cúmplice</h3>
<p>Infelizmente, em nossos dias ainda vemos cenas que lembram Caim e Abel dentro da própria Ordem. Vemos um Irmão “matando” outro com a calúnia, com a intriga, com a exclusão, com a vaidade que ergue muros onde deveriam existir pontes.</p>
<p>E o que fazemos? Muitas vezes nos acovardamos. Desviamos o olhar. Fingimos não ver. Dizemos para nós mesmos: “não é problema meu”, “não quero me envolver”, “deixa pra lá”.</p>
<p>Ao agir assim, repetimos a trágica resposta de Caim: “Sou eu o guardador do meu irmão?”.</p>
<p>Mas não podemos esquecer que a Maçonaria nos chama justamente para o contrário. Fomos iniciados não para sermos espectadores da injustiça, mas arautos da justiça e da verdade. Fomos chamados para ser a voz que impede a pedra de ser lançada, a mão que ergue quem caiu, a consciência que incomoda quando o silêncio se torna conivência.</p>
<p>Ser maçom é ter a coragem de interferir quando a fraternidade está em risco. É não aceitar que o orgulho de um destrua o trabalho de muitos. É lembrar que o Templo só se sustenta quando cada Pedra sustenta a outra.</p>
<p>O silêncio diante da injustiça é também uma forma de violência. E toda vez que nos calamos frente ao erro de um Irmão, permitimos que mais um “Abel” seja sacrificado no campo.</p>
<p>Que a pergunta “Onde está o teu irmão?” nos tire da zona de conforto. Que ela nos cobre ação, presença e coragem moral. Porque se não formos nós a defender a verdade e a fraternidade dentro da Ordem, quem será?</p>
<h3>Temor, justiça e retidão diante do Grande Arquiteto</h3>
<p>Acrescenta-se a essa reflexão o entendimento de que o homem, ao reconhecer a grandeza do Árbitro dos Mundos, é tomado pelo temor e respeito a Deus. Não se trata de um medo servil, mas de uma reverência que o coloca em seu devido lugar diante da Criação.</p>
<p>É esse temor que o conduz a andar na justiça e na retidão divina. Por reconhecer que existe uma lei maior que o governa, o homem busca agir com equidade, integridade e moral, pois sabe que suas ações estão sob o olhar do Grande Arquiteto do Universo.</p>
<p>Assim, a verdadeira fraternidade só se sustenta quando alicerçada nesse princípio: temer a Deus é, antes de tudo, respeitar o próximo. E respeitar o próximo é cumprir o dever de guardá-lo.</p>
<h3>A lição de Caim para os dias atuais</h3>
<p>A história de Caim demonstra que a vaidade é extremamente perigosa quando alimentada pelo orgulho. O problema não foi apenas a rejeição de sua oferta, mas sua incapacidade de aceitar que precisava melhorar. Enquanto Abel ofereceu o melhor de si, Caim preocupou-se mais consigo mesmo do que com o verdadeiro sentido da oferta.</p>
<p>Essa diferença permanece atual. Também hoje buscamos, muitas vezes, reconhecimento, cargos, honrarias ou elogios. Quando não os recebemos, surgem o ressentimento, a competição e a divisão.</p>
<p>No entanto, a verdadeira iniciação ensina exatamente o oposto: a grandeza do homem não está em ser superior ao seu irmão, mas em tornar-se superior ao homem que ele próprio foi ontem.</p>
<h3>Justiça, correção e transformação</h3>
<p>A justiça divina também se manifesta nesse relato. Depois do assassinato, Deus declara que o sangue de Abel clama desde a terra. A violência jamais permanece oculta. Toda ação produz consequências.</p>
<p>Contudo, mesmo diante da culpa de Caim, Deus não permite sua execução. Coloca sobre ele um sinal para que ninguém o matasse. Nesse gesto encontramos outra importante lição: a justiça divina não se confunde com vingança. Ela responsabiliza, corrige, mas preserva a possibilidade de transformação.</p>
<p>Esse princípio encontra profunda harmonia com os ideais maçônicos. A Maçonaria não busca condenar homens, mas transformá-los. Não combate pessoas; combate os vícios. Não destrói o homem imperfeito; procura lapidá-lo até que se torne uma Pedra Polida, útil à construção do Templo da Humanidade.</p>
<h3>Conclusão: um exame diário de consciência</h3>
<p>Assim, a pergunta “onde está o teu irmão?” deixa de ser apenas uma lembrança do passado e transforma-se em um exame diário de consciência.</p>
<p>Cada vez que ignoramos o sofrimento alheio, cada vez que permitimos que a inveja substitua a admiração, cada vez que a vaidade fala mais alto que a humildade, cada vez que julgamos antes de compreender, cada vez que preferimos competir quando deveríamos cooperar, a voz de Deus continua perguntando: “onde está o teu irmão?”.</p>
<p>Que jamais respondamos como Caim. Que possamos responder com nossas atitudes.<br />
Que nosso irmão esteja protegido por nossa lealdade. Fortalecido por nossa fraternidade. Inspirado por nosso exemplo. E acolhido por nossa justiça.</p>
<p>Porque, ao contrário do que afirmou Caim, somos, sim, guardadores de nossos irmãos.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Antes  que teus olhos contemplassem o mundo: um breve ensaio sobre o Batismo, o ofício do padrinho e uma carta a Celine</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Hernan Centurion]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Aug 2026 09:00:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingo em Desbaste]]></category>
		<category><![CDATA[afilhada]]></category>
		<category><![CDATA[alegria]]></category>
		<category><![CDATA[batismo]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Hernan Centurion Sobral (*) &#160; À minha afilhada Celine Querida Celi, &#160; Recebi anteontem, de teus pais, a notícia mais doce que poderia ter-me sido dada nos últimos tempos: serei teu padrinho de Batismo. Ainda ressoa em mim aquele instante, singelo, breve, despretensioso e, no entanto, repleto de emoção e imenso o bastante &#8230;</p>
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<blockquote><p>Por Hernan Centurion Sobral (*)</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>À minha afilhada Celine</p>
<p>Querida Celi,</p>
<p>&nbsp;</p>
<span class="dropcap ">R</span>ecebi anteontem, de teus pais, a notícia mais doce que poderia ter-me sido dada nos últimos tempos: serei teu padrinho de Batismo. Ainda ressoa em mim aquele instante, singelo, breve, despretensioso e, no entanto, repleto de emoção e imenso o bastante para reorganizar, de uma só vez, toda a arquitetura interior de qualquer homem cristão.</p>
<p>Existem acontecimentos cuja verdadeira dimensão somente se revela quando contemplados à distância, pois, enquanto os vivemos “no automático”, parecem apenas mais um entre tantos episódios que compõem a nossa história. Contudo, ao analisarmos com atenção, descobrimos que jamais foram fatos isolados, senão desdobramentos de um projeto infinitamente maior que nós mesmos. A Providência possui beleza e sabedoria, uma vez que não costuma impor-se por intermédio do estardalhaço ou da algazarra dos grandes espetáculos. Ao contrário, prefere o silêncio e a discrição. Aproxima pessoas sem que compreendam a razão dos encontros; amadurece afetos antes mesmo que estes reconheçam a própria intimidade; entrelaça destinos aparentemente independentes e, somente depois de muitos anos, permite-nos perceber que, desde o princípio, nenhuma página daquela história esteve fora de Suas preciosas mãos.</p>
<p>Foi justamente essa convicção que inundou meu ser quando teus pais confiaram-me a sublime missão de ser teu padrinho. Confesso-te que não experimentei apenas a alegria natural de quem recebe um gesto de carinho e confiança. Houve, logo após, um silencioso recolhimento interior, semelhante àquele que experimentamos diante das realidades verdadeiramente sagradas. Há notícias que despertam entusiasmo; outras, entretanto, convidam-nos à contemplação, porque não pertencem apenas ao universo das decisões humanas, mas ao insondável mistério do propósito. Desde aquele instante, compreendi que não me era oferecida apenas uma honra; não obstante, era-me confiada uma responsabilidade que transcende o tempo, alcança a eternidade e somente encontra pleno sentido à luz da fé cristã.</p>
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<p>Sempre que costumeiramente faço quando volto ao meu “eu” e começo a escrever, procurei compreender a origem da palavra que me foi lançada. Vou agora ensinar-te tua primeira lição de Português: o termo <strong><b>padrinho</b></strong>, derivado do latim <em><i>patrinus</i></em>, pai espiritual, jamais designou simples figura meramente protocolar destinada a participar de mais uma celebração familiar. Desde os primórdios da Igreja, indicava aquele que, por intermédio do próprio testemunho, auxiliaria os pais na condução espiritual do filho, não lhe competindo substituir a autoridade paterna, porém partilhando com ela a mais elevada das responsabilidades da nossa existência, ou seja, recordar continuamente a uma alma recém-nascida que sua verdadeira morada jamais será encontrada apenas neste mundo em que ora eu e teus pais habitamos. Não por acaso, a tradição cristã sempre compreendeu que um padrinho não é escolhido para uma cerimônia, todavia é chamado para uma caminhada.</p>

			</div></div>
<p>Essa reflexão conduziu-me, inevitavelmente, ao memorável diálogo entre Cristo e Nicodemos em João 3: 4-8, quando Jesus afirma que ninguém pode entrar no Reino de Deus se não nascer da água e do Espírito. Este evangelho não descreve apenas um rito sacramental, todavia revela uma nova antropologia, isto é, até então, o homem antigo se definia por aquilo que recebia ou herdava de sua linhagem consanguínea, sem jamais escolher seu destino. O apóstolo amado narra que não basta nascer pela carne, é preciso renascer pelo Espírito, revelando, pois, que a identidade mais profunda do homem não repousa naquilo que sua origem lhe impôs, porém no que a graça lhe oferece livremente, tornando filho de Deus aquele que, até então, era apenas filho dos homens, ou seja, um oferece-nos a vida recebida de nossos pais e o outro comunica-nos aquela recebida do próprio Deus. A água que um dia pairou sob o Espírito na criação, que abriu caminho para Israel entre as muralhas do Mar Vermelho, que santificou as margens do Jordão ao tocar a humanidade do próprio Cristo, continua, ainda hoje, a escorrer silenciosamente sobre a fronte de cada criança, não como simples símbolo de purificação, mas sim como sinal visível de uma graça invisível. O Pai Celeste jamais espera o Batismo para amar alguém, uma vez que o Batismo apenas revela ao mundo um Amor que jamais conheceu o princípio.</p>
<p>E por falar de princípio, foi então que minha memória empoeirada regressou no tempo, para muitos anos atrás, quando conheci tua mãe vivenciando a infância que lhe iluminava o olhar e o futuro permanecia inteiramente aberto. Vi-a crescer, amadurecer, descobrir a vocação para a Medicina, construir uma família, fortalecer sua fé e tornar-se uma mulher tão admirável que hoje tenho a alegria de poder chamar de irmã caçula.</p>
<p>Também tua chegada me permitiu compreender, sob nova perspectiva, a amizade construída com teu pai. A Medicina e os projetos profissionais aproximaram-nos, o prazer em viajar fortaleceu nossa convivência e até mesmo nossa obstinada fidelidade ao Vasco da Gama — essa curiosa “escola de perseverança” que tantas vezes ensina mais sobre esperança do que propriamente sobre futebol — tornou a caminhada mais aprazível. Não obstante, olhando retrospectivamente, percebo que nenhuma dessas circunstâncias explica verdadeiramente nossa amizade, posto que eram somente fios de uma tapeçaria, cujo desenho Deus já contemplava muito antes de qualquer um de nós e que, discretamente, no centro dela, estavas tu.</p>
<p>Ainda não contemplamos teu sorriso, não ouvimos tua voz, desconhecemos o brilho dos teus olhos, entretanto tua existência já modificou aqueles que te cercam. Existe um paradoxo encantador nas crianças que repousam no ventre materno, pois, embora absolutamente dependentes, tornam-se capazes de transformar adultos experientes; mesmo ainda incapazes de pronunciar uma palavra, começam a ensiná-los; ainda que não caminhem, já conduzem famílias inteiras para mais perto de Deus. Talvez por isso Cristo tenha colocado uma criança diante de Seus discípulos, quando desejou revelar-lhes a verdadeira grandeza d’alma. Os pequenos infantes recordam aos grandes adultos aquilo que a vida, por vezes, insiste em fazê-los esquecer, ou seja, que toda existência é dom divino, toda esperança nasce da confiança Nele e somente os corações puros e mansos permanecem suficientemente livres para reconhecer Deus quando Ele passa.</p>
<p>Escrevo-te estas palavras sem conhecer a mulher em quem te tornarás. Ignoro quais serão teus sonhos, tuas alegrias, teus receios ou mesmo as cruzes que inevitavelmente visitarão tua jornada. A experiência da Medicina ensinou-me que nenhuma existência humana atravessa o tempo sem feridas; já a fé, contudo, revelou-me algo infinitamente mais consolador: que nenhuma ferida cicatriza e permanece estéril sem ser tratada pelas mãos de Deus. Por isso, não poderia esperar que o Senhor te preserve de todo sofrimento (seria desejar-te uma condição incompatível com a necessidade da natureza humana), mas suplico-Lhe que jamais permita que qualquer dor obscureça, em teu coração, a certeza de que és infinitamente amada. Se um dia essa convicção permanecer inabalável, descobrirás que todas as demais respostas encontrarão, cedo ou tarde, o seu devido sentido.</p>
<p>Talvez esperes, um dia, grandes ensinamentos daquele que hoje te escreve; quem sabe? Os meus 47 anos de vida convenceram-me de que os discursos mais eloquentes dificilmente transformam alguém, mas as atitudes e os exemplos, sim! Por essa razão, eu não consiguirei oferecer-te respostas para todas as perguntas que surgirão ao longo da tua existência, tampouco impedir que experimentes as inevitáveis vicissitudes da condição humana. Prometo permanecer ao teu lado enquanto Deus me conceder esse privilégio, rezar por ti quando já não souberes ou puderes rezar e recordar-te, sempre que necessário, que tua dignidade jamais dependerá daquilo que possuis, da profissão que exercerás ou do reconhecimento que receberes dos homens, não obstante, exclusivamente, do fato de seres filha Daquele que te pensou desde toda a eternidade.</p>
<p>Permite-me, por fim, uma última revelação. Durante muito tempo imaginei que padrinhos fossem escolhidos para conduzir seus afilhados ao encontro de Cristo. Creio que não seja tão bem assim. Quiçá seja Cristo quem coloque uma criança nos braços de um padrinho, para recordar-lhe o caminho de volta até Ele, visto que, enquanto imaginamos ensinar a fé aos pequenos, são eles que restauram, sem perceber, a pureza da nossa própria fé. Ao passo que acreditamos conduzi-los ao Céu, descobrimos que são eles que, silenciosamente, nos conduzem.</p>
<p>Assim, quando um dia a água do Batismo tocar tua fronte e teu nome ecoar pela primeira vez entre as paredes da Igreja, muitos acreditarão assistir, tão somente, ao início de tua vida cristã. Teu padrinho, entretanto, guardará outra certeza: que este sublime momento representará, também, uma revelação de que Deus já caminhava contigo há muito tempo e preparava tua família, teus afetos, teus encontros e até mesmo este velho padrinho – tão desejoso de ter sido pai biológico de uma menina e que hoje escreve estas linhas tortas – muito antes que qualquer um de nós pudesse imaginar tua existência. Se, muitos anos depois, esta carta sobreviver ao tempo e vier repousar novamente nas tuas mãos, desejo que conserves apenas uma única verdade: de que, bem antes que teus olhos contemplassem o mundo, Deus já contemplava teu futuro, muito antes que teu nome fosse pronunciado por teus pais, Ele já o conhecia desde toda a eternidade e, antes mesmo que eu compreendesse a grandeza da missão que me era confiada, o Senhor já escrevia, silenciosamente, esta história que agora apenas tenho o privilégio de narrar.</p>
<p>Destarte, finalizo com a esperança de que um dia possamos conversar ainda mais sobre estas histórias, já não como padrinho e afilhada, mas como dois amigos e peregrinos que, sustentados pela mesma graça recebida nas águas do Batismo, caminham confiantes em direção à Casa do Pai.</p>
<p>Com amor, de teu tio e dindo, Hernán</p>
<p>&nbsp;</p>
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