Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Duck, o fiel escudeiro
Após dias corridos, inúmeros compromissos, agenda cheia das atividades laborais, me permito ficar o domingo em casa, só. Só não, na companhia do, meu buldogue inglês. Cheguei em uma fase da vida que não troco a companhia de Duck por muita gente que conheço. Entre as boas coisas de envelhecer é ficar mais seletivo quanto às companhias. Quando se descobre a preciosidade do tempo, vamos gastá-lo apenas com o que vale a pena.

Último domingo do mês de junho, derradeiro dia do primeiro semestre. Há anos passo em claro a virada da semestre, em balanço mental do que vivi nestes primeiros seis meses do ano: grato pelo que passou, pedindo proteção pelo que virá pela frente.

Embora conheça muita gente, tenho poucos amigos. “Gosto de gente, mas às vezes tenho essa necessidade voraz de me libertar de todos”, cito Lygia Fagundes Telles.

Em épocas juninas fui a alguns arraiás próximos de onde moro. Tudo muito bonito, organizado; mas muita gente junta e misturada. Estou em tempos de sossego, melhor ficar no refúgio de casa. Minha saudosa mãe Maria da Conceição, dizia sempre: “Boa romaria faz, quem em sua casa está em paz”. Isso! Ando à procura de paz, de calmaria. Desde garoto reservo tempo só para mim. Para não fazer nada; ou melhor, para fazer algo de grande importância, pensar. “Tempo de encontro do eu com o eu”, escreveu Clarice Lispector em “Um sopro de Vida”.

Procrastinador; aproveito a calmaria do domingo para arrumar gavetas, melhor distribuir quadros na parede, procurar livros perdidos, colocar a leitura em dia, ouvir músicas. Coisas prazerosas.

“Nascemos sem saber falar e morremos sem ter sabido dizer. Passa-se nossa vida entre o silêncio de quem está calado e o silêncio de quem não foi entendido, e em torno d’isto, como uma abelha em torno de onde não há flores, paira incógnito um inútil destino”, cito Fernando Pessoa, meu poeta preferido.

Conheço pessoas que gostam de cercar-se de muita gente. Necessito do silêncio. O silêncio me inspira. Hora de desacelerar: alinhar pensamentos, resgatar memórias, sonhar, projetar o futuro.

Luxo é ter tempo para fazer o que se gosta. Permitir-se fazer “vários nadas” e não se culpar por isso.

Às vezes, por medo da dor ou da solidão, vamos deixando as coisas pra depois, tapando o sol com a peneira, fingindo não ver determinadas coisas, acumulando pessoas e sentimentos que não são necessários.

Outras vezes, por medo da mudança ou do desconhecido, vamos deixando de arriscar, tentar, buscar novos caminhos que podem ser o que tanto precisamos nesta existência.

Mas o tempo. Ah, o tempo, ele nos mostra o que precisamos segurar e soltar.

Olho pela janela e vejo o céu alaranjado, o sol se despedindo desse derradeiro dia de junho, dando lugar ao clarear da lua. O tempo segue impávido seu curso. Estamos em julho.

 

Luiz Thadeu Nunes

Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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