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O CABARÉ DO VATICANO: MEMÓRIAS DE ARACAJU

Publicado em 24 de setembro de 2018, 10:36

Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento

A palavra francesa Cabaret serve para designar espaço de entretenimento com música, dança, frequentados por pessoas mais abastadas que marcou a vida daquele país no período da belle époque. No Brasil e em outras culturas ganhou também o sentido de prostíbulo, lupanar, casa de prostituição, puteiro, espaço procurado por homens não apenas para a obtenção de favores sexuais, mas também para encontros de final de tarde e nos períodos noturnos com amigos e muitas vezes até para tratar de negócios empresariais. Muitos ganharam notoriedade e foram imortalizados pela literatura. Bom exemplo é o Bataclan, em São Jorge dos Ilhéus, sul da Bahia, espaço central da trama da novela Gabriela, escrita por Jorge Amado. Em Aracaju, muitos ficaram notórios, como Alabama, Atlântico, Bela Vista, Epitácio, Fresca e Miramar.

Mas, poucos, ganharam a notoriedade do Vaticano, um conjunto de 10 sobrados localizados entre a Praça das Sete Luzes, a avenida Otoniel Dórea e o Beco dos Cocos que no pavimento superior abrigava o famoso cabaré. O conjunto foi construído pelo empresário José da Silva, à época importante empreendedor imobiliário. A denominação se deve a suntuosidade da obra edificada ao final dos anos de 1920, logo inapropriadamente comparada pelo imaginário popular com a grandeza da Santa Sé.

Constituir e dar publicidade a uma memória é a forma prática de oferecer as bases empíricas para a organização de um campo científico: o da História. A história é, por assim dizer, a forma científica de organização da memória. Esta, por ser fruto de uma escolha efetuada pela ação temporal das configurações humanas, se apresenta sob a condição de monumentos. Ou, quando tomada pelos historiadores, submetida ao trabalho destes, caracterizada como documento. O historiador Jacques Le Goff lembra que a palavra latina “monumentum” remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (memini). O monumentum é um sinal do passado… é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos. O monumento tem como característica o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos. As contribuições memorialísticas são sempre bem vindas. Principalmente quando bem ordenadas e expostas de um modo que vão para além dos limites da memória, posto que assentadas sobre um vasto cabedal de erudição.

Em 2005, a cidade de Aracaju recebeu duas importantes contribuições. Do ponto de vista da pesquisa histórica, o Dicionário de Nomes e Denominações de Aracaju, de Luiz Antônio Barreto, contendo informações sobre pessoas, fatos, datas da vida sergipana. A contribuição do engenheiro Fernando Porto no seu livro, Alguns Nomes Antigos do Aracaju, privilegiou a memória. Beco do Açúcar, Água Boa, Rua do Angelim, Anipum, Rua do Araçá, Aracajuzinho, Alto da Areia, Areinha, Aribé, Aroeira, Rua da Aurora, Rua do Barão, Morro do Bomfim, Rua da Cadeia, Canto Escuro, Carro Quebrado, Carvão, Praça da Catinga, Chica Chaves, Ilha das Cobras, Várzea do Coelho, Cruzeiro do Século, Estrada Nova, Praia Formosa, Fundição, Rua do Gaiola, Rua do Ouvidor, Pega P’ra Capar, Raposa, Telha, Vaticano.

A lista de nomes é imensa. São Lugares conhecidos de Aracaju, com nomes que já foram varridos da memória da cidade. Difícil associa-los agora a lugares como a Travessa Deusdeth Fontes, a área da avenida Maranhão onde atualmente está localizado o Aero Clube, a Rua Vila Cristina, a Avenida Rio Branco, a Rua João Pessoa, a Praça General Valadão, ao Iate Clube de Aracaju, a Praça da Bandeira, ao Bairro Industrial, ao Centro de Criatividade, a Avenida João Ribeiro, a Praia 13 de Julho, a Avenida Ivo do Prado.

O jornalista e historiador lagartense Luiz Antônio Barreto nasceu em 1944 e morreu em Aracaju no ano de 2012. Foi diretor de revistas e jornais e editor em Aracaju e no Rio de Janeiro. Foi gestor público e dirigiu o Instituto Nacional do Livro, a Galeria de Artes Álvaro Santos, a Fundação Joaquim Nabuco, a Fundação Augusto Franco e assessorou a Confederação Nacional de Indústria. Foi Secretário Municipal da Educação de Aracaju e foi Secretário de Estado da Cultura e também da Educação em Sergipe.

 O engenheiro de minas e civil Fernando de Figueiredo Porto faleceu em 2005, aos 92 anos de idade. Nascido em Nossa Senhora das Dores, foi prefeito de Própria, professor da Escola Técnica Federal de Sergipe, da Faculdade Católica de Filosofia e da Universidade Federal de Sergipe. Pesquisador do desenvolvimento urbano, são importantes as contribuições anteriores oferecidas por ele em estudos como A cidade de Aracaju, “Os planos de urbanismo e sua aplicação às cidades sergipanas” e “Teófilo Dantas, um intendente de Aracaju”.

Ao publicar o livro no qual Fernando Porto rememorou alguns nomes antigos de logradouros de Aracaju, a Prefeitura da cidade, através da Funcaju, se associou à Sociedade Semear para oferecer uma contribuição primorosa à memória/história da capital do Estado de Sergipe. Em uma bonita edição, a Aracaju da transição do século XIX para o século XX emerge não apenas no leve texto do autor, mas também numa bem cuidada iconografia, que se mostra já na foto da Travessa Deusdeth Fontes no ano de 1937 que aparece na capa do livro.

São 48 fotografias de diferentes espaços. Em Alguns nomes antigos do Aracaju, a memória que aparece não é apenas aquela que remete a uma coleção de curiosidades. Ao apresentar os nomes que agora nos soam estranhos, Fernando Porto revela uma cidade que já não mais é. Fala da dificuldade em identificar a nomenclatura aracajuana primitiva, tanto pela inexistência de documentos escritos quanto pelo esquecimento das diferentes denominações. Remete o leitor a um tipo de realidade “que se manifesta de forma completamente diferente do que acontece nas outras perspectivas da história: a memória”. Em outras palavras, o transporta ao conjunto de comemorações, ao quotidiano, ao sentimento de duração, às coisas que mudam e a tantas outras que permanecem. Fala de história. A toponímia das cidades é provisória, por mais que pareça estável. Avançar em direção ao futuro é muito difícil. O vir-a-ser tritura, apaga os topônimos, produz esquecimentos sob uma voraz sanha mutatória que vai “deslocando para pontos remotos ou de menor valor urbano nomes de logradouros, muitos deles já arraigados na tradição popular” – como afirma o professor Porto.

Ítalo Calvino nos ensina que “de uma cidade, nós não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas”. O livro aqui examinado nos induz a formular perguntas à cidade de Aracaju, ajudando a conhecer o seu processo de urbanização, as suas formas, a sua intensidade e as suas peculiaridades. Compreender o conjunto de relações sociais estabelecidas no espaço urbano da capital. Um espaço seletivo, no qual as diferentes áreas, cada um dos bairros, possuem equipamentos urbanos distintos, algumas regiões guardando práticas que nem sempre são condizentes com os hábitos sociais mais contemporâneos. Cada espaço com características próprias ao processo da sua expansão, com múltiplas variações de uso urbano nas relações entre as pessoas e o espaço, gerando freqüentes conflitos.

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