domingo, 16/12/2018
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Duplichaves

Nenhuma saudação ao Papai Noel

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Dia desses eu estava assistindo ao Jornal Nacional e via uma matéria sobre o incêndio no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, ocorrido no 21 de dezembro. Velho, já não bastam os assassínios com a língua, agora também tem que queimar a bichinha?

Dias desses eu estava revirando algumas caixas, sobras de mudanças e me deparei com um CD de músicas, que se remetiam à minha época de adolescente punkrockheadbanger. E, dentre as pérolas musicais da época, havia uma canção da banda ‘careca do Brasil’ Garotos Podres: o hit ‘Papai Noel’, uma canção anticapitalista que dizia assim:

“Papai Noel, velho batuta,
Rejeita os miseráveis.
Eu quero matá-lo.
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos,
Cospe nos pobres”.

A letra da banda skinhead tupiniquim tem, mesmo na sua raivosidade peculiar à natureza roqueira da periferia da época, um quê de verdade: o brinde do Natal aos que têm condições de comprar, comprar, comprar. Em vez do aniversariante – neste caso dizem que Jesus nasceu em dezembro – ser o grande celebrado no Natal, Papai Noel se torna a figura central do momento.

Enquanto isso, na Sala de Justiça… esquecemos que o Natal é o nascimento de Jesus, o símbolo maior e razão da existência do Cristianismo. Durante o ano inteiro, esquecemos a pregação do amor, do compartilhamento, da fraternidade, da exaltação à vida, da aproximação com Deus (que são as bases cristãs) e, simplesmente, substituímos isso tudo pelo amigo secreto e pelo pinheiro de plástico.

Dinheiro entra em tudo. Mas o bichinho não tem culpa de nada. Ser inanimado como é, apenas se transforma na vontade das pessoas. Estas, sim, que deveriam aprender todo mundo é importante, que cada ser humano é um presente embrulhado para o outro.

Troque o panetone por um sorriso de alguém que não tem o que comer o ano inteiro. Troque o peru por um abraço em uma criança na rua, cujos olhos são desprovidos de esperança. Troque a árvore plástica pelo apertar de mãos de alguém que não se preparou e não teve oportunidades na vida e dê-lhe o que falta.

A vida nos dá a oportunidade de vivenciar um Natal TODO OS DIAS DO ANO. O problema é que vivemos esperando o Papai Noel. Mas deixe-me contar um segredo: ELE NÃO EXISTE!

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Comentários

  1. É isso aí, Marcio! As músicas deixaram de ter valor subjetivo em detrimento do comercial… mas a vida segue. Espero que os questionamentos ‘punks’ não desapareçam e, com eles, a “energia e as perguntas” tão necessárias ao fim do comodismo.
    Um Abraço!

  2. Belo artigo! Quando jovem (mais do que hoje) eu encontrava nas musicas de punk rock a força que o meu universo rebelde continha e, claro, adorava. Apenas pela condição comum a quem tem energia e perguntas demais, e pouco conhecimento da vida real. Hoje, adulto, continuo gostando e escutando essas bandas, musicas, mas de forma diferente. Com mais prazer inclusive. Curtindo os acordes e as batidas pesadas, relembrando bons momentos e, principalmente percebendo que a maior subversão desse movimento era na verdade um grito tentando dizer que o ter nao pode jamais se sobrepor ao ter.
    Ontem na celebração da missa do Galo o Papa Francisco chamou a atenção de quem o assistia para o que ele chamou de ” embriaguez do consumo”. Claro que a fantasia do Papai Noel é importante e que alimentar a mente e o espírito das nossas crianças com sonhos e fantasias é obrigação de nós, pais. Mas o problema acontece quando esquecemos que o Papai Noel não precisa (e nem deve) ser a razão de ser do Natal, e sim um tempero para acrescentar mais sabor a receita da vida, amor, fraternidade e responsabilidade que Jesus Cristo trouxe de presente para toda a humanidade quando se fez homem. Viva ao Natal! .